No meio da rua tinha um afago

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Imagem by Giuseppe Martino cc

Eu o encontrei, ou melhor, ele me encontrou apressada, enquanto passava rápido diante de um estacionamento. Mas veio tão feliz ao meu encontro que não pude deixar de parar para lhe dar atenção. Eufórico, começou a pular ao meu redor e jogou as patas no meu colo, com aquela expressão de máxima felicidade que só os cachorros sabem ter. Parecíamos dono e animal nos reencontrando, depois de anos sem nos vermos.

Fiz um afago e olhei em volta, procurando algum tipo de responsável. Ninguém. Magro e sujo, o cão estava mais pra ser de rua do que da casa de alguém. Perguntei ao funcionário do estacionamento. Quem sabe essa responsabilidade não era dele? “Nunca vi por aqui” foi a resposta. Atrasada para o cinema, me pus a andar com o coração doído. Atrás de mim, o animal vinha sorrindo um sorriso besta de língua de fora.

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Pequeno manual de notícias falsas

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Como saber se uma notícia veiculada na internet é falsa? Com um pouco de conhecimento e as ferramentas certas, é fácil desbaratar qualquer farsa. Basta querer.

Então vamos aos critérios:

1. Qual é a fonte?

Até a assessoria do Senado já deu o recado
Até a assessoria do Senado já deu o recado

A primeira pergunta para saber se uma notícia confiável é: de onde veio? Se você sequer sabe de onde o texto ou a imagem foram tirados, já é um indício de farsa. Se veio da (o) sua (seu) tia/prima/vizinho/amigo de infância, é outro indício de notícia pouco consistente porque, eles, assim como você, não devem ser especialistas no assunto. Blogs e páginas do Facebook das quais você nunca ouviu falar também são suspeitos.
Mas mesmo que as fontes sejam dúbias, isso não necessariamente anula a veracidade de uma notícia. Se algum amigo seu te ligasse no dia 1º de maio de 1994 falando que o Senna morreu, você duvidaria, certo? Qual é a primeira coisa que iria fazer? Ligar a TV para ver o que os jornais estão falando. Como jornalista, eu iria entrar na internet (finge que tinha internet na época) e conferir a capa dos principais portais de notícias. Leia o resto deste post »

Um conto de fadas feminista

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Não é segredo que “Malévola” tem sido a sensação dos cinemas nas últimas semanas. Junte uma releitura ousada de um clássico dos contos de fadas, uma linda cenografia e o magnetismo de Angelina Jolie e o sucesso está explicado. Mas não é só isso. O longa redime os clássicos infantis no seu ponto mais sensível: o papel que é dado à mulher.

Em geral, o contos de fadas, do tipo Cinderela, Branca de Neve, A Pequena Sereia, Bela Adormecida, seguem mais ou menos o mesmo roteiro. Jovem donzela inocente é colocada em perigo por uma bruxa má e resgatada por um príncipe encantado. O final geralmente é uma união, um beijo ou um casamento, e todos são felizes para sempre, menos a bruxa má, que morre ou é punida de alguma forma. Nos últimos anos, já que a fórmula “pobre donzela inocente” não cola mais, estúdios como a Disney têm tentado criar novos clássicos, nos quais a mulher aparece, digamos, em um papel mais moderno. Elas passaram a ter gênio forte, se
aventuram? e no final se casam com o tal do príncipe encantado.

ImagemDesenho após desenho, filme após filme, é repetido para garotinhas do mundo todo o mesmo mantra: “você só será feliz no final se encontrar seu príncipe encantado e se casar”. Desenhos mais recentes, como A Bela e a Fera, Pocahontas, e O Corcunda de Notre Dame, mostram mulheres que tomam suas próprias decisões e vão atrás do que querem. E como recompensa recebem um marido no fim do filme. Até Mulan, a heroína que cortou o cabelo e se disfarçou de homem para lutar entre guerreiros, encontra seu homem no final. “Enrolados”, releitura do conto Rapunzel, trouxe uma mocinha super decidida, que no final se apaixona e se casa. Animação dos anos 2000, ideologia dos anos 60. Nada contra casamentos, mas não podia dar uma variada? Aí vieram Valente e Frozen, as duas primeiras animações estilo contos de fadas nos quais as heroínas não estão desesperadamente em busca do verdadeiro amor. As feministas deram pulinhos de alegria, mas a verdadeira redenção veio com Malévola.

—- ATENÇÃO: A PARTIR DAQUI O TEXTO CONTÉM SPOILERS—

Nessa releitura de Bela Adormecida, focada na vilã, vemos como a história de Malévola começou, e como ela chegou ao ponto de Imagemamaldiçoar um bebê recém-nascido. Enfurecida e humilhada após ter sido drogada e ter suas asas cortadas pelo homem por quem havia se apaixonado, ela desconta toda a sua raiva na filha do seu “ex-príncipe encantado”. É a primeira vez que se mostra uma agressão de homens em relação a mulheres. Enquanto alguns dizem que esse trecho tornou o filme misândrico, a própria Angelina Jolie afirmou que a cena era uma metáfora para o estupro.

Polêmicas à parte, foi a primeira vez que eu vi, num conto de fadas, uma mulher e um homem na disputa pelo poder. Malévola não é uma princesa adolescente sujeita às vontades do rei-pai. Ela também não é uma jovem rebelde que quer virar guerreira, ou sequer uma fadinha de vestido cor-de-rosa. Malévola é dona do seu próprio reino e disputa de igual para igual com o rei vizinho. Essa é a inovação do filme, mostrar a mulher num lugar de poder, ao mesmo tempo em que mantém a humanidade da personagem.

Nos outros contos de fadas, as mulheres só têm algum poder quando são as vilãs. Aliás, dá pra contar nos dedos de uma mão os vilões masculinos desse tipo de história. E me causou espanto essa constatação: toda vez que a mulher tem algum poder nos contos de fadas (um poder político, ok? Não o de ter um cabelo mágico ou de fazer passarinhos cantarem), toda vez que ela pode bater de frente com algum rei ou reino, ela é má. Ela é a vilã que tem que ser combatida pelo príncipe encantado (que vai virar rei e assumir o poder, mas ninguém fala disso, né?).

Em Malévola, apesar de a personagem central ser em alguns momentos uma vilã, ela também é heroína e donzela. Ela é uma rainha, independente se má ou boa. Se A Bela Adormecida era o meu conto de fadas favorito durante a infância, posso dizer que Malévola conquistou meu coração de adulta. E o melhor: no final, ao invés de se casar, ela passa a coroa adiante. Para outra mulher.

O sistema medieval das penitenciárias brasileiras*

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*texto originalmente postado no portal elEconomistaAmerica Brasil

Imagens de cabeças decapitadas, amontoadas no pátio de um presídio, correram as redes sociais e chocaram o mundo na última semana.

Os donos dos corpos já sem vida eram detentos do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, capital do Maranhão, um dos estados mais pobres do Nordeste brasileiro. Os executores eram presos de uma facção rival, e o massacre aconteceu durante uma rebelião no final de 2013.

O vídeo não é o único retrato do caos que tomou conta do sistema carcerário brasileiro. Imagens de um presidiário sendo barbaramente torturado (preservaremos os leitores dos detalhes sórdidos) na mesma penitenciária já rodaram a internet. Relatos de detentos que são obrigados a comer carne crua e beber da própria urina para não morrer de sede também podem ser encontrados em meio às notícias.

Um dos principais motivos desse sistema desumano é a superlotação. No Brasil, 548 mil presos ocupam 310 mil vagas. A matemática e a física indicam que a conta está errada. Mas é isso mesmo. Como o Estado brasileiro prende mais pessoas do que é capaz de administrar, faltam vagas e sobram detentos. Assim, celas em que caberiam seis abrigam mais de 20. Sem cômodos suficientes, delegacias e prisões não raro usam contêineres para abrigar detentos, amontoando pessoas em uma caixa de metal exposta ao sol durante horas. Além de dignidade, falta comida, falta água, faltam estruturas básicas de higiene e, sobretudo, falta segurança.

Por mais estarrecedor que pareça, a opinião de grande parte dos brasileiros, a julgar pelos comentários em sites e redes sociais, é de que o castigo é bem merecido. “Vagabundo tem que sofrer mesmo”, “dignidade é para as famílias das vítimas” e “na hora de roubar e matar ele não teve dó de ninguém” são algumas das frases raivosas que circulam pela internet. A sede de sangue dos brasileiros em relação aos presidiários é tanta que, quando o governo anunciou que a família do preso que tiver contribuído com o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) teria direito a receber o benefício, a indignação tomou conta de parte dos internautas. Em tempo: o auxílio do INSS, pago todos os meses pelo trabalhador, é concedido sempre em casos de desemprego ou afastamento por doença. Ao conceder o benefício às famílias dos detentos que contribuíram com o INSS, o governo tem o objetivo de evitar que os filhos dos mesmos tenham também que recorrer ao crime.

Na sede cega de Justiça, porém, escapa um mínimo de raciocínio lógico. Deixando toda a questão da dignidade humana de lado, digamos que os presos que cometeram crimes bárbaros mereçam esse tipo de tratamento. De início já temos um problema: nem todos os presidiários cometeram crimes bárbaros. O sistema carcerário brasileiro está de tal modo configurado que um ladrão de galinhas pode acabar dividindo a cela com um homicida. Em segundo lugar, não há sequer certeza de que parte dos presidiários seja de fato culpada, sendo que mais de 195 mil são presos provisórios, que muitas vezes ainda aguardam julgamento. Como o judiciário brasileiro também é sobrecarregado, a Justiça é lenta, o que faz com que inocentes passem anos na cadeia.

Além disso, o sistema prisional falha, e muito, em reduzir a criminalidade (partimos do pressuposto de que a diminuição da violência seja um dos objetivos da reclusão, certo?). Isso porque, com o controle deficiente, muitos presos comandam crimes de dentro das próprias penitenciárias. Também estima-se que em torno de 60% dos presidiários venham a cometer novos crimes ao serem soltos. Depois de passar por um regime bárbaro, no qual se recebe penas muito além das quais se foi condenado, o detento que sai da cadeia encontra as portas do mercado de trabalho fechadas. Sem programas de reinserção social e muitas vezes sem a ajuda da família (que também teve que se virar para se manter), ele não vê alternativa a não ser voltar a cometer crimes, muitas vezes com a ajuda de ex-colegas de cela.

Diante de todo esse cenário, denunciado há anos pela própria ONU e por entidades de direitos humanos, as cenas de brutalidade do Complexo Penitenciário de Pedrinhas não são de todo uma surpresa. Afinal, de homens que foram privados de todo tipo de direitos humanos, só podemos esperar um comportamento medieval.

Gritos da Liberdade

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Você, eu, milhares de pessoas sabem os seus motivos para estar nas ruas. Cada um protesta a sua própria maneira e pelas causas que acredita. Embora nem todos concordemos sobre o que deve ou não ser prioridade.

Porém, como em junho, temos um denominador comum: temos o direito de estar nas ruas. Temos o direito de nos manifestarmos. E esse direito tem sido sistematicamente violado através da violência policial.

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De ditadura e autoritarismo

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Tá circulando pela internet uma discussão quentíssima (e esquentadíssima) que rolou em vídeo entre o Rafucko, o Carioca e o Pedro Dória. A conversa é principalmente sobre mídia e o papel dos novos e tradicionais veículos nas manifestações. Acho que os três têm pontos válidos, que os três são excelentes profissionais (acompanho o Dória e o Carioca a algum tempo pra poder dizer), e que essa é uma discussão hiper complexa.

Mas queria chamar a atenção para algo em particular que o Rafucko disse em resposta ao Dória.

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As mulheres precisam de…?

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Quer ter uma ideia do pensamento geral sobre determinado assunto? Digite no Google. Quando você preenche a caixa de buscas com um termo como “BH é”, a ferramenta completa automaticamente com os itens mais procurados. No caso, apareceu: “BH é onde”, “BH é 110 ou 220” e “BH é um ovo”. É, pois é.

Então um órgão da Onu que trabalha para acabar com a discriminação contra as mulheres resolveu digitar os termos “women need to/should/shouldn’t/cannot” (mulheres precisam/devem/não devem/não podem) e ver quais eram os termos que as pessoas mais usavam quando o assunto era o que era esperado ou necessitado pelo sexo feminino. O resultado foi esse:

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“Mulheres deveriam… ficar em casa/ser escravas/ficar na cozinha/não falar na igreja”

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