No meio da rua tinha um afago

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Imagem by Giuseppe Martino cc

Eu o encontrei, ou melhor, ele me encontrou apressada, enquanto passava rápido diante de um estacionamento. Mas veio tão feliz ao meu encontro que não pude deixar de parar para lhe dar atenção. Eufórico, começou a pular ao meu redor e jogou as patas no meu colo, com aquela expressão de máxima felicidade que só os cachorros sabem ter. Parecíamos dono e animal nos reencontrando, depois de anos sem nos vermos.

Fiz um afago e olhei em volta, procurando algum tipo de responsável. Ninguém. Magro e sujo, o cão estava mais pra ser de rua do que da casa de alguém. Perguntei ao funcionário do estacionamento. Quem sabe essa responsabilidade não era dele? “Nunca vi por aqui” foi a resposta. Atrasada para o cinema, me pus a andar com o coração doído. Atrás de mim, o animal vinha sorrindo um sorriso besta de língua de fora.

Comecei a procurar uma lanchonete. Se eu não podia dar um lar, quem sabe uma refeição? Demorou uns cinco quarteirões até eu encontrar um restaurante. E ele sempre atrás, fiel como se soubesse que já tínhamos um laço. Às vezes parava no caminho para coçar umas pulgas – devia estar cheio delas – mas logo corria para me alcançar. Corremos juntos por um trecho para poupar tempo. Ele galopou feliz ao meu lado, feliz, feliz, como se nos conhecêssemos há anos.

Cheguei até o restaurante. Falei para ele: “fica aqui, me espera”. Ele não tentou entrar, já sabia que não era bem-vindo. Corri na fila do quilo e enchi uma quentinha com carne e comprei uma garrafa d’água o mais depressa que pude. Saí e ele não estava na porta. E agora? Olhei em volta. A uns 20 metros, ele fuçava umas sacolas de lixo. Chamei, ele veio feliz.

Coloquei a quentinha no chão e ele lambeu o molho, não parecia entender que era pra comer. Todo esse trabalho e ele nem vai comer? Pensei. Talvez os pedaços estivessem muito grandes. Piquei alguns, com a mão mesmo – atrasada pro cinema, agachada na calçada cortando carne na mão para um cachorro de rua. Me julguem, vai. Ele se distraía com os carros que passavam. E ainda tem déficit de atenção, o malandro! Peguei um pedaço e ofereci a ele. Comeu da minha mão sem a menor cerimônia. Daí olhou para a quentinha, entendeu que era a mesma coisa e começou a devorar o prato.

Oscilei por um segundo sobre o que fazer. Então saí correndo, com as mãos sujas, para encontrar a amiga que já me esperava na porta da sala do cinema. Mas ele não me saiu da cabeça. Até passei no mesmo local na saída do filme, mas ele obviamente não estava mais lá. Foi pular nas pernas de outro, o meu cachorro.

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