As mulheres-vitrine

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Quando eu tinha 13 anos, minha família se mudou para um novo bairro em BH. Ainda na primeira semana na casa nova, saí caminhando pelo bairro, para descobrir o que tinha de interessante por lá: lojinhas, padarias, papelarias que vendiam canetas coloridas. Numa dessas vezes, eu estava andando na calçada perto de uma praça quando um homem, de uns 30 anos, parou o carro ao meu lado e me pediu uma informação. Eu, orgulhosa de já saber me virar por ali, expliquei que para chegar na BR ele tinha que contornar a praça, pegar a terceira rua à direita e seguir até o final. O cara não entendeu, pediu pra explicar de novo. Expliquei. Ele insistiu: qual rua que é? Era tão óbvio, eu tinha acabado de apontar ali na frente, não entendia porque ele ficava me perguntando mil vezes sobre a mesma informação, até que percebi o gesto que ele estava fazendo. Ele estava se masturbando.

O cara simplesmente parou uma menina na rua, inventou uma desculpa para manter ela em frente ao carro e ficou lá usando ela seu próprio prazer sexual. E essa menina era eu. E eu estava sozinha no meio da rua, de um bairro desconhecido, numa época em que ainda pensava em canetas coloridas e sequer tinha beijado na boca.

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Apesar de ter sido a mais grave, não foi a primeira vez e nem a última que eu seria assediada. Já perdi as contas de quantas vezes um desconhecido tentou passar a mão em mim ou segurou meu braço na balada. Também já tentaram me beijar à força e frequentemente ainda ouço cantadas pelas quais eu não pedi, a maioria sussurrada de maneira ininteligível quando o cara está passando por mim. A mesma situação se repete com 90% das meninas que eu conheço. Todo mundo tem uma história nojenta para contar e eu inclusive já escrevi sobre isso aqui, em 2009.

Existem vários níveis de assédio e abuso sexual, passando do olhar de cão faminto até o estupro. Mas todos partem do mesmo princípio: a mulher como um objeto de entretenimento para o homem. É como se o mundo fosse uma vitrine, e as mulheres objetos à venda. Eles vão passando e comentando se gostam ou não do que veem. Quando gostam, é só dar um lance. Lembram daquela frase “o que eu tenho que fazer pra ganhar um beijo?”? Então. Se o objeto parece inacessível, só pode ser porque está com um preço acima do que vale “tá se achando a última bolacha do pacote, heim?” já ouvi de um completo estranho quando repeti pela terceira vez que não queria dançar com ele.

A situação é muito triste, mas felizmente esse é um debate que está em alta hoje, por causa do texto da jornalista Karin Hueck. Ela fez uma pesquisa para saber o que as mulheres pensam sobre as cantadas que recebem nas ruas. Gostaria de dizer que o resultado foi estarrecedor, mas infelizmente esse é o retrato de uma realidade que todas as mulheres já conhecem:

83% não acham que cantada é legal

81% já deixou de ir a algum lugar ou fazer algo por medo de ser assediada

90% já trocou de roupa por medo de ser assediada

cantada

É claro que existem cantadas, e existem elogios, como um “desculpe incomodar, mas eu te achei linda e queria te dizer isso”. E também existem mulheres que gostam de cantadas e até se sentem “feias” por não chamarem a atenção dos homens na rua (como se a segurança sobre a sua beleza viesse dos outros, e não de você mesma, mas enfim…). Mas é uma linha muito tênue, e quem vai dizer se ela foi ultrapassada ou não é a mulher. Quantas vezes você pode dizer que uma mulher se sentiu realmente elogiada pelo que ouviu na rua? Bom, a pesquisa ali de cima já mostrou o resultado.

Desde aquele dia nos meus 13 nos, desde do meu texto em 2009, desde o início do século, a situação não mudou. O texto da Karin me fez ter vontade de imprimir panfletos e sair distribuindo pra todo “engraçadinho” que acha as mulheres deveriam ficar agradecidas quando escutam um total estranho dizer como gostaria de trepar com ela.

Quer ler o resultado completo da pequisa? Tem aqui.

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