salvar vidas

De psiquiatras e tabus

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Olá, meu nome é Larissa e eu tenho depressão endógena. Eu tomo remédios controlados desde os 16 anos e vou no psiquiatra a cada dois meses.

Já ensaiei escrever este texto muitas vezes. Acabei apagando por medo de “me queimar”, não entre os meus amigos, mas principalmente entre os meus colegas de profissão. Já falei desta doença aqui no blog e fiz referências a “alguém muito querido” que sofre com isso. Já menti várias vezes no trabalho, quando indagada a qual médico eu ia (neurologista, para a enxaqueca, era a resposta padrão) e sobre para quê eu estava tomando remédio. E já fiquei em silêncio enquanto ouvia um colega de trabalho dizer que a moça que estava se candidatando ao mesmo cargo que eu era louca, porque “tomava remédios tarja preta e ia no psiquiatra”.

Se eu sinto a necessidade de me calar e esconder algo que deveria ser natural, é porque existe um tabu. E se existe um tabu, ele precisa ser discutido.

Então aqui estou eu, respirando fundo, com o exemplo de mim mesma.

Só o Mr. Newman me entende.
Só o Mr. Newman me entende.

Vamos lá. Existe uma grande confusão entre os conceitos de tristeza e depressão. A tristeza é uma reação normal a um acontecimento difícil. Foi demitido? É claro que é motivo para ficar pra baixo, a reação saudável é mesmo ficar chateado até conseguir retomar as rédeas da vida. Já a depressão que a maioria das pessoas conhece, chamada de depressão exógena, é quando essa tristeza por algo que aconteceu se prolonga por muito tempo. Acontece com gente que perdeu um ente querido e depois “não consegue mais retomar a vida”. Isso não é uma fraqueza ou “manha” da pessoa. Mulheres e homens têm diferentes formações emocionais e mentais. Qualquer um pode entrar numa espiral de depressão e precisar de ajuda para sair de lá, e esses episódios têm que ser levados muito a sério.

Já o problema que eu tenho é a chamada depressão endógena. “Endo”, em oposição a “exo” se refere a algo que vem de dentro. Isso significa que as causas das minhas quedas de humor são majoritariamente bioquímicas e determinadas por fatores genéticos. Os próprios médicos não sabem explicar exatamente o que acontece, já que o cérebro humano ainda é um mistério para a medicina. Mas a maioria parece concordar que o problema é relacionado à recepção dos neurotransmissores, como a serotonina e a dopamina (conhecidos por causarem sensação de bem-estar). Ainda há dúvidas se o problema é que existem poucos receptores dessas substâncias ou se eles não funcionam de maneira adequada. E não, não existem exames para medir isso.

Então a minha depressão não tem um “motivo”. O que geralmente é um problema, porque quando eu digo que não estou bem as pessoas costumam perguntar “o que aconteceu?” e não dá o pra dizer que “meus receptores de serotonina decidiram entrar em greve ontem à noite”. Para esclarecer, eu gosto muito de comparar a depressão endógena com o diabetes causado por herança genética. Ambos são causados por fatores internos, mas podem ser agravados ou amenizados por fatores externos. Por exemplo: um diabético pode adotar uma alimentação saudável e exercícios físicos e até chegar dispensar as aplicações de insulina. Algo semelhante acontece com quem tem depressão endógena, sendo que o melhor antídoto é a terapia, e acontecimentos impactantes ou mudanças bruscas também podem desencadear uma crise. Ambos os males são doenças crônicas que, se bem controladas, permitem que as pessoas levem vidas normais, mas que terão que ser vigiadas para o resto da vida.

Só que, diferentemente do diabetes, em que você pode medir seu índice glicêmico e avaliar a evolução da doença, não existem exames para medir o grau de depressão de uma pessoa. E é aí que mora o perigo. Eu fui diagnosticada muito cedo, aos 16 anos, principalmente pelo fato de a minha mãe ter uma versão bem grave dessa doença e sempre ter ficado de olho nos meus sintomas. E isso, como no diabetes, foi fundamental para que eu pudesse controlar a doença. Mas eu mesma não tinha nem ideia de que tinha alguma coisa errada comigo. Eu me sentia cansada o tempo todo, dormia muito e raramente tinha vontade de sair com meus amigos, mas achava que eu era assim mesmo. Me lembro de escrever no meu diário numa virada de ano: “podia ter um intervalo entre um ano e outro, em que eu não tivesse a obrigação de existir e pudesse descansar”. Eu me cansava de existir.

Sabe quando você descobre que acabou a nutella? Era assim todo dia.
Sabe quando você descobre que acabou a nutella? Era assim todo dia.

Com o tempo, com terapia e remédios adequados (hoje eu tomo um antidepressivo e um estabilizador de humor) eu consegui começar me erguer e partir para a vida, mas ainda tive várias crises que duraram meses, sempre com um intervalo de mais ou menos três anos entre elas. Minha última crise aconteceu no meio de 2012. Não creio que meus colegas de trabalho tenham reparado, porque felizmente sempre consegui cumprir minhas tarefas apesar da minha angústia. Hoje, o principal objetivo que eu, minha psiquiatra e minha terapeuta temos é evitar novas recaídas. Mas eu sempre tive uma dúvida: seria eu só mais uma adolescente enjoada? Seria a depressão nada mais do que parte da minha própria personalidade? Eu não sei. Hoje eu posso dizer que estou em um dos meus melhores momentos dos últimos anos, e tenho a sensação que os medicamentos que eu tomo me permitem que eu tenha disposição para ser eu mesma. Mais do que isso, tenho a sensação de que não existe nada que possa alterar quem eu fundamentalmente sou.

Ainda quero voltar depois ao assunto da depressão. Por agora digo que se você está passando por uma fase de tristeza profunda muito prolongada, seja por causa de uma situação difícil ou principalmente sem motivo nenhum, procure ajuda. Mais do que procurar ajuda, estude. Leia tudo o que puder sobre a depressão, aprenda tudo o que puder sobre o funcionamento do seu cérebro. Converse com quem foi diagnosticado com a doença, com médicos, terapeutas. E nunca, jamais, tome remédios psiquiátricos ou pare de tomá-los por conta própria.

Atualização – leia o segundo post da série aqui: O caminho dos nossos medos

Santa Maria e a nossa responsabilidade

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Tem circulado uma carta na internet, a princípio escrita por uma das vítimas do incêndio na boate Kiss em Santa Maria. No texto a menina comenta sobre o momento no qual a Dilma chorou ao comentar sobre a tragédia ou visitar os parentes das vítimas e literalmente pede para a presidente “engolir o choro” e fazer alguma coisa.

Clique aqui para ler a carta.

Pois é. Não precisa conhecer muito de política para dizer que muita gente trata governantes e políticos como deuses ou demônios. Num momento eles são os grandes benfeitores do País, aqueles que “colocaram o Brasil nos trilhos” e no outro eles são os responsáveis por toda desgraça que acontece, da consciência do funcionário não-treinado à epidemia de crack nas ruas.

É de todos nós.
É de todos nós.

Existe o hábito de ver os governantes como os únicos jogadores do jogo do soberania brasileira, enquanto todos nós somos apenas expectadores que ficam xingando, lá da arquibancada. Como se não tivéssemos nada a ver com as políticas públicas e com o comportamento da sociedade.

Há alguns anos eu trabalhei numa ONG chamada Oficina de Imagens e, entre outros trabalhos, ajudava num programa da Unicef chamado “Município Aprovado“. A ideia ajudar as prefeituras das pequenas cidades do norte de Minas a melhorar os indicadores sociais do município, como taxa de desnutrição, acesso à escola e etc. No final, as cidades que conseguissem avançar ganhavam um selo reconhecido internacionalmente. E o que se via era que, por mais dinheiro que uma região tivesse, a mudança só acontecia de verdade quando a comunidade inteira ajudava.

Ainda me lembro do que me disse um dos coordenadores do programa, algo assim: “As pessoas acham que o papel dos governantes é resolver todos os problemas da cidade para elas. Mas a verdade é que se as pessoas não se envolverem, as prefeituras e os governos não dão conta de mudar o cenário sozinhos”.

No final a lição de Santa Maria é essa. O que matou mais de 200 jovens não foi o fogo ou a fumaça. Foi o descaso e a negligência com a segurança das outras pessoas, cometidas tanto pelos órgãos públicos quanto pelos empresários e pelos músicos em nome da economia ou da comodidade. Agora pare e pense: quantas vezes você já burlou as regras em nome da comodidade e da economia?

Deixa eu te ajudar. Você já falsificou carteirinha de estudante? Já dirigiu depois de beber? Já pediu pra aquele médico amigão da família fazer uma receita de remédio controlado, porque você precisa viajar e a cartela está no fim? Já furou fila? E essa vai para os amiguinhos jornalistas: você já usou sua influência profissional para ser atendido antes em órgãos públicos ou entrar sem pagar em museus e shows?

Pois é. Que tal se, além de culpar a todos os governantes, empresários e políticos do país, a gente parasse para pensar e colocasse a mão na consciência?

Quem quiser mais sobre esse assunto, também recomendo o texto do Antônio Prata, que está fantástico.

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Gostou do post? Então leia mais:
Reclame dos serviços públicos
Os Guarani-Caiová e o ativismo de sofá
O governo não é seu inimigo
A decisão do STF sobre a Ficha Limpa (de 2011)

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Outubro Rosa (ou: toque seus peitos)

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Ah, se as mulheres prestassem tanta atenção aos seus peitos quanto os homens…

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Outubro é o mês dedicado à prevenção do câncer de mama. Estão rolando campanhas lindas por aí, todas cor-de-rosa. =)

É o seguinte: o câncer de mama é o segundo mais frequente do mundo. A estimativa é que neste ano mais de 52 mil brasileiras morram pela doença. Sem falar nas que sobrevivem, mas têm que passar pelo processo super doloroso de reconstrução das mamas.

Acontece que o câncer de mama é muito fácil de ser detectado. Para quem não conhece, vai uma cola do auto-exame aí embaixo, feito pelo Plush Blush. Além disso, é importante fazer uma mamografia anual, principalmente as mulheres acima de 35 anos. Esse exame consegue detectar tumores bem pequenos, e nesse estágio a chance de cura é de 95%!

No Brasil a mortalidade é muito alta, principalmente porque as mulheres deixam de fazer esses exames e o tumor só é detectado quando está do tamanho de uma bola de golfe (ok, exagerei). Mas é sério. Meninas, aproveitem o mês para marcar sua mamografia anual. Estamos chamando esse dia de “dia rosa”. Fofo.

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Então reserve seu dia rosa e encha o saco incentive mãe, filhas, irmãs, avós, tias, primas, amigas e colegas a fazerem o mesmo.

E pra quem quiser conhecer mais sobre o tema e ler histórias bacanas:

Pesquisa da Avon, mostra que o amor é fundamental para a cura
 História da Simone Mozzilli
 Site do Outubro Rosa no Brasil
 Seção do blog Plush Blush dedicada ao tema
 Videozinhos divertidos sobre o tema

Belo Monte: a gota d’água

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O movimento contra a construção da usina de Belo Monte ganhou aliados poderosos: atores globais!

Ei dona Dilma e pessoal do “desenvolvimento acima de tudo”: vocês a acham que podem tudo? O povo pode mais! (tá ok, empolguei)

É a Gota D’ Água +10 from Movimento Gota d’ Agua on Vimeo.

Vale a pena entrar no site Gota D’água e assinar o manifesto.

Também vale conhecer o blog Belo Monte de Violências, do brilhante procurador da República no Pará, Felício Pontes Jr. Por si só esse site já vale outro post.

De sapos a gatos

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Lucy antes…

Essa primeira foto foi tirada em fevereiro, no dia que eu resgatei a Lucy. Ela estava magrinha, imunda e esfomeada. De lá pra cá ela foi castrada, vacinada, vermifugada, bem alimentada e o principal: ganhou um local seguro para morar e muitos cafunés. Quatro meses depois, eis o resultado:

… e depois

Essa foto de celular não faz jus ao quanto ela está linda e feliz. É um poço de carinho. Pede colo todo dia e criou o hábito de fazer manha quando eu estou de saída pro trabalho. Brinca de lutinha e de pega-pega com as minhas gatas o dia inteiro. Sinceramente, meu coração aperta muito quando penso em doá-la. Como é que eu entrego essa criaturinha para um estranho?

ooohhh

Quando mostrei essa foto para o dono da banca (que se preocupa e pergunta todo dia sobre ela), ele chegou até a perguntar se era a mesma.

Essa comparação é para mostrar o quanto vale a pena ajudar um animal que vive nas ruas, que sofre. A gratidão deles por nós não tem medida. E o meu caso é ainda bem sem graça se comparado a alguns que já aconteceram na AUG. Outro dia vimos uma gata que antes era super agressiva (a ponto de atacar quando as voluntárias tentavam vaciná-la e medicá-la) se desmanchar de dengos diante dos carinhos da sua nova dona. O fato de se sentirem protegidos e amados é tão importante para os animais, que muitos deles mudam de personalidade na casa da família que o adotou.

Em tempo: a AUG está com uma campanha do agasalho para animais. Vale a pena participar.

**ATUALIZAÇÃO:
É claro que no final ela foi adotada. Por mim. A Lucy é minha e ninguém tasca!

Um homem de bem a menos

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Assistindo ao discurso de Zé Claudio Ribeiro no TEDx Amazônia, me lembrei que não chequei se a madeira da minha escrivaninha é certificada. Encomendei em outubro de uma loja em SP e simplesmente me esqueci desse ponto. Que mancada.

Zé Cláudio foi morto na semana passada, junto com sua mulher. Mais um para se somar ao triste time de Chico Mendes e irmã Dorothy.

O que ele tentava dizer era: “a floresta vale mais em pé do que derrubada”. Que descanse em paz.

Em tempo: andam dizendo que o novo Código Florestal tem culpa no assunto. O que acham?

 

Compre um jornal e ganhe um gato

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Foto por Dani Xavier, voluntária da AUG e catsitter profissional

Certo dia estava eu a caminho do restaurante perto do trabalho, quando me chamaram a atenção para um filhote em frente a uma banca. Como aqui em São Paulo muitas lojas têm gatos, e o bichano dormia em frente às revistas sem a menor cerimônia, achei que já tinha quem cuidasse dele. Qual não foi a surpresa, quando o jornaleiro me disse que o bichinho tinha aparecido ali naquele dia e resolvido “montar acampamento” por lá mesmo. Apesar disso, o dono da banca não parecia achar que o problema era dele (afinal, o problema dos animais de rua nunca é de ninguém, só da prefeitura, que não dá conta de solucionar a questão sozinha, mas enfim…) e me ofereceu a gata, como se fosse um brinde que acompanha a revista.

Já prevendo o desfecho, a frajolinha começou a ronronar feliz e pedir cafuné, provando que a escola da rua lhe ensinou muito bem a arte da chantagem emocional. Meia hora depois eu estava dentro de um táxi, com uma caixa improvisada e sem a mínima ideia do que fazer com aquele projeto de gato, apenas com a certeza que não podia deixar ela morrer sozinha na rua.

Desde então Lucy ganhou nome, lar temporário, banho, doses de vacina e vermífugo. Devorou o primeiro pote de ração como se fosse o fim dos tempos, correu atrás das minhas (duas) gatas até criar amizade e ronronou no meu colo por horas seguidas. Ela também foi castrada e está disponível para adoção na ONG Adote um Gatinho. Me ajudem a divulgar? Doaremos apenas para a grande São Paulo, para apartamentos telados ou casas seguras (onde ela não possa sair para a rua).

E para provar que a Lucy dá de dez em qualquer gato de madame, eis ela na caçada ao misterioso pontinho vermelho: