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A patrulha gramatical ou: da dor de não saber

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Como que monta, mãe?
Como que monta, mãe?

As pessoas cometem erros gramaticais incríveis na internet, eu sei. Acredite, eu leio, escrevo e reviso milhares de caracteres por dia e não tem nada que faça meu estômago revirar mais fácil do que um “fássio”. Mas antes de sair dando indiretas no Facebook ou dar print screen no erro dos outros, eu tento parar e pensar sobre algumas coisas:

A primeira questão é que eu sou uma pessoa muito privilegiada nesse país. Eu tive acesso a uma boa escola, tenho boa capacidade de aprendizado, tenho pais que me incentivaram o hábito de leitura desde cedo e tive acesso ao ensino superior. Além disso, sou jornalista, tenho a língua portuguesa como objeto de trabalho, o que me dá o privilégio de saber mais do que a média quando o assunto é coesão textual ou regras gramaticais.

Mas a maioria das pessoas não teve a mesma vida que eu. Muita gente não teve oportunidade de estudar, porque tinha um trabalho integral aos 12 anos ou porque a escola era muito longe. Outros até frequentaram bons colégios, mas têm problemas de aprendizado. Outros ainda acabaram focando totalmente em outras áreas, por causa da dificuldade com o português e com as matérias de humanas.

Então quando a gente aponta o dedo e critica uma pessoa que não sabe escrever de modo correto, nós estamos fazendo isso de uma posição muito superior a ela, e isso, na minha opinião, é extremamente cruel. É como se você visse um cara sem um braço na rua e começasse a rir porque ele não consegue fechar o zíper do casaco. E isso vale mesmo que seja uma indireta ou um comentário sem alvo definido.

Eu já conheci pessoas maravilhosas que têm tanta habilidade com textos quanto eu tenho com uma britadeira. E o que mais me dói é que isso é extremamente embaraçoso para elas. Minha avozinha linda, por exemplo, nunca respondeu nenhuma das cartas que eu mandei, porque ela morre de vergonha de ser semi-analfabeta. Mal sabe ela que eu ia amar até se ela me mandasse um coração desenhado num guardanapo. O que são um monte de rabiscos, perto de todas as rezas que ela já fez para mim na vida?

Essas pessoas sempre fizeram parte da nossa vida e tentaram esconder o fato de não dominarem a língua como nós (sem duplo sentido, please). Mas agora a geração mais nova delas ganhou um computador, no qual se pode perguntar e errar sem que ninguém veja e julgue. Essas pessoas podem entrar no Google no quarto delas e aprender, clique após clique, o que seus pais não tinham coragem de perguntar. Elas provavelmente são a primeira geração da família que pode opinar entre as pessoas “relevantes”, seja contra a corrupção no Senado ou seja a favor do corte de cabelo do Justin Bieber.

A gente pode até criticar quem trocou “s” com “c”. Mas temos que saber que essa cutucada é feita de um plano muito privilegiado em relação a quem recebe, e pode acabar se transformando num soco na barriga. E de estômago revirado aqui, basta o meu.

Uma cidade mais útil

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Um grupo de designers franceses percebeu que a cidade em que viviam precisava ser mais criativa e humana. Então decidiram criar pequenas ferramentas que transformavam e davam novos usos para bancos, cabines telefônicas, máquinas de café. Assim, as pessoas que iriam jogar uma sacola no lixo poderiam deixar a embalagem em um compartimento especial para que outros reaproveitassem o material. Cabines telefônicas ganharam carregadores de celular e muros ásperos ganharam ganchos para pendurar roupas.

Achei interessante. Me fez pensar que as pessoas que usam os espaços públicos são justamente as que têm mais conhecimento para interferir na cidade.

Maquininha de transformação

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On Flickr by eschipul (cc)

Hoje eu subi um degrauzinho na escadaria da minha evolução pessoal.

Foi assim: precisava sair 19h30 do trabalho, para resolver uma pendência que está pendente há dias. Pedi e avisei com antecedência, mas faltando 10 minutos, me cai uma pilha de tarefas no colo. Conclusão: a pendência voltou para a pilha das “tarefas urgentes e não-cumpridas”.

Fiquei com raiva. Torci o nariz, amarrei o burro e fiquei resmungando comigo mesma por uns bons cinco minutos. Depois refleti: a situação é injusta? É. Afinal, esse é o horário normal em que eu deveria sair do trabalho (o que eu pedia era pra não fazer hora extra hoje). Além disso, se essa pendência não for resolvida logo, vai passar para o status de problema sério. Mas o que eu ia fazer? Subir em cima da mesa e sapatear?

Há alguns anos atrás, eu iria de burro amarrado para casa. Provavelmente seria grossa com várias pessoas no meio do caminho sem nem dar a elas a chance de entender o motivo do meu mau-humor. Talvez até fizesse birra e descontasse a questão na qualidade do trabalho. Lidar com a raiva, com o rancor e com a frustração é uma questão delicada para mim desde a infância. Quando criança, vez ou outra eu tinha surtos de ódio e descontava quebrando objetos (as pessoas nunca, ainda bem). Um tampo de vidro trincado, um sulco de caneta na parede e uma lixeira quebrada são resultado do meu furor.

Com o tempo, e com o apoio de pessoas muito especiais que tiveram paciência comigo, tenho feito progressos nesse quesito. Por isso, hoje fiz uma forcinha, acionei minha maquininha de transformação interior e me lembrei de um provérbio budista: “se não dá para mudar uma situação, você pode pelo menos mudar sua atitude em relação a ela”. Então, já que o compromisso estava perdido, aproveitei para relaxar e fazer o restante das minhas tarefas com tranquilidade e atenção. Em paz.

Terminado o serviço, surge mais um pepino. Pois não fiz corpo mole, fui atrás da solução. Saí do trabalho já ia uma hora depois do combinado. Em tempos passados eu chegaria em casa trazendo um pacotinho com o meu mau-humor, um rancor amargo e até talvez a incompreensão dos outros. Mas hoje eu voltei com um mix de paz interior com reconhecimento pelo trabalho cumprido e um tapinha nas costas de brinde. Ponto para mim.

Ingresso no balão

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Lucas Jatobá é brasileiro e morou em Barcelona por três anos. Gostou tanto da cidade que, quando decidiu se mudar, quis deixar um presente. Então ele comprou sete ingressos para o teatro, os amarrou em balões com uma cartinha doce e soltou pela cidade. Uma agência viu o vídeo no Twitter e decidiu ampliar a ideia. Comprou 250 ingressos e 250 balões para que Lucas soltasse pela cidade.

Não é lindo? De dar lágrimas nos olhos de uma coração-de-pudim feito eu. A criatividade brasileira é o que há!

Vi aqui.

Divagações no ponto de táxi

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cc on Flickr by stevecadman
Eu bem que queria entrar num táxi-fusca...

Estava eu lá, na fila de táxi do aeroporto, com uma sacola que cobria bem uns dois terços da minha altura (tá booom, uns dois quintos, vai). Fila gigante, de umas cinquenta pessoas, dessa vez sem exageros.

A coreografia era assim:

Chegava um táxi, o ajudante-de-ponto-de-táxi pegava a mala do primeiro da fila e ia correndo colocar no porta-malas. Uma única pessoa se encaminhava para o interior do veículo e este partia. A fila dava um passinho adiante.

Assim, um sem-número de vezes repetidos, os mesmos movimentos.

E eu lá no finalzinho pensando com meus botões: “ué, o táxi não tem quatro lugares? Se todos os lugares fossem ocupados, a fila andaria 4x mais rápido, teriam 4x menos táxis partindo do aeroporto e os passageiros pagariam 4x menos pela corrida. Não é possível que não existam quatro pessoas que não estejam indo para o mesmo lugar aqui, ou pelo menos para lugares próximos, ou lugares-que-são-caminho uns dos outros”.

Eu, que só tinha R$ 20,00 na carteira e teria que pegar táxi só até o metrô, bem que fiquei com vontade de perguntar pro meu vizinho de fila se ele topava dividir a corrida. Mas fiquei com vergonha. E segui quietinha na fila, imaginando um mundo ideal no qual a divisão de táxis surgiria espontaneamente entre estranhos.

Voltando atrás

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cc by D'Arcy Norman on Flickr
O sagrado direito de escolha

Quero voltar atrás em algo que eu disse.

Essa não é a primeira vez e não será a última, mas leiam com atenção. No post anterior disse que somos uma nação de malandros hipócritas. Quero retirar isso. Não é a verdade. Assim como também não é a verdade dizer que o Brasil é uma nação de gente alegre, ou de pessoas altamente criativas ou de mulheres sensuais e homens charmosos. Isso porque não se pode definir um país por um adjetivo ou dois. Não existe palavra no mundo, nem a melhor combinação delas que possa definir igualmente 190 milhões de pessoas. Nem duas. Nem uma. Se não há como definir um único ser humano como bom, mau, mimado, egoísta ou bondoso, o que dirá uma nação?

Vocês podem dizer: ah, mas a maioria dos brasileiros… Besteira. Ninguém nunca fez uma pesquisa para saber como a maioria dos brasileiros age. E se fizesse, também não seria confiável, porque uma pesquisa sobre algo tão subjetivo quanto as nossas qualidades morais simplesmente não diz a verdade.

Mas aí vocês me dizem: mas a visão que o mundo todo tem dos brasileiros… Mais besteira ainda. Não é só porque alguém repete algo sobre você todos os dias que isso passa a ser verdade. Só nós podemos definir a nós mesmos. E mesmo assim muito além de conceitos como “malandros hipócritas”.

Percebi que estava errada há uns 12 minutos atrás, durante uma conversa com uma amiga. Ela perdeu seu celular, e tem grandes evidências de que alguém encontrou o aparelho e não devolveu. Então ela se pôs a xingar os brasileiros. Instintivamente me pus a defender os brasileiros. Aí percebi: ops, eu não tinha não só dito, como escrito o contrário dias atrás? Afinal, qual é minha verdadeira posição? Xingar e defender uma nação de acordo com a minha conveniência não parece um pouco… hipócrita? De uma maneira um tanto quanto dissimulada?

[Pausa para compreender o paradoxo]

Fiz o que fiz (assim como espero que minha amiga tenha feito o que fez) por um motivo bem simples (mas não banal): estava com raiva. Estava profundamente com raiva de o mundo não ser como eu quero. De termos (porque também faço parte desse povo) dado nosso voto de confiança a alguém que, se não se importa com sua função, pelo menos age como se não se importasse, o que é pior ainda.

Fiquei com raiva porque, por mais que existam atos, boatos e sapatos que indiquem o contrário, ainda acredito que o sistema democrático foi construído visando algo supremo. Algo supremo como a união de pessoas simplesmente pelo reconhecimento que elas dependem e precisam profundamente umas das outras. Algo supremo como a execução de um esforço enorme para proporcionar paz, não para mim, mas para todos. Algo supremo como a construção, pela primeira vez na história da humanidade,  de instituições que visem o bem estar coletivo e ideais como Justiça, Paz, Compaixão, Igualdade, Fraternidade, Respeito. Prestem atenção: não disse que esses ideais foram alcançados, mas repito que a simples existência, reconhecimento e oficialização da busca por esses ideais representa muito.

E achei que a eleição do Tiririca tinha estragado tudo isso.

Mas quem sou eu pra achar alguma coisa, do alto dos meus míseros 24 anos? O processo de consolidação da democracia brasileira já dura mais de cem anos e vai continuar por muitos séculos depois que eu não estiver mais aqui. Quem sou eu para julgar em que ponto estamos? Talvez o Tiririca seja uma peça tão fundamental nesse processo quanto foi o movimento das Diretas Já.

O que preciso fazer é parar de julgar as  pessoas. E assim dar a elas a confiança de que podem fazer suas próprias escolhas. Um dia por vez.

 

PS: mas eu continuo achando extremamente errado falsificar carteirinha de estudante ou boleto da faculdade (olha meus amigos me odiando duplamente…).

Aplicando a multa moral

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Outro dia tive a oportunidade de aplicar minha primeira multa moral.

Foi em uma palestra do Carlos Heitor Cony. Além de ouví-lo falar, as primeiras 50 pessoas que chegassem ao local teriam direito de comprar o livro que ele lançou, Eu, aos Pedaços. Corri por vários quarteirões carregando um saco de ração de 4 kg e cheguei 40 minutos antes do horário, exausta e suada. Já havia uma fila considerável. Com o tempo as pessoas foram se cansando de ficar em pé. Algumas desistiram, outras pediram para guardar lugar e sentaram nos degraus da escada.

Comecei a conversar com um rapaz e uma moça que estavam na minha frente. Comentávamos que havia pessoas que tinham acabado de chegar e se aproximavam da fila, possivelmente com a intenção de burlar um lugar. Tive então a oportunidade de apresentar essa ideia nova da multa moral. As pessoas ao redor ficaram bem interessadas, de modo que distribuí vários exemplares pra difundir a ideia.

Entre as pessoas recém chegadas que paravam próximo à fila, havia um homem de camisa verde que chegou uns cinco minutos antes do horário e se postou ao lado da primeira pessoa. O cara batia papo tranquilamente, e a gente de olho, lá do meio da fila. “Parece que vai furar” dizia um senhor. “Ele chegou muito depois da gente” dizia uma moça.

Quem chegou antes tem direito. É ou não é?

De fato, na hora que a porta se abriu, lá foi o moço disfarçademente e, como quem já “estava com a turma” se esgueirou pra dentro do recinto. Não satisfeito com desrespeito, ele ainda teve o desplante de pegar o livro e ir embora. Ou seja: estava ali só pra faturar um exemplar a preço de banana.

Pois não titubiei. Preenchi o papelzinho, e na hora que o sujeito saía sorrateiramente, lhe chamei e estendi a multa. “O que é isso?” ele perguntou sem entender muito bem. “É uma multa moral, porque você furou a fila” disse eu, num tom cordial, porque também não é pra ofender. “Ah…” disse ele, sem graça. E foi embora.

Nós na fila rimos e sentimos que, de alguma forma, Justiça fora feita. Não que eu seja a paladina da moral agora, mas o gostinho foi bom e quem sabe o cara pense duas vezes da próxima vez?

Falassério, furar fila é um dos hábitos mais deploráveis. Não sei por que as pessoas acham que, se conhecem alguém que já está lá na frente, têm o direito de entrar junto com a pessoa, como se fizessem parte do “pacote”. Alguém entende?