Gritos da Liberdade

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Você, eu, milhares de pessoas sabem os seus motivos para estar nas ruas. Cada um protesta a sua própria maneira e pelas causas que acredita. Embora nem todos concordemos sobre o que deve ou não ser prioridade.

Porém, como em junho, temos um denominador comum: temos o direito de estar nas ruas. Temos o direito de nos manifestarmos. E esse direito tem sido sistematicamente violado através da violência policial.

“Ah, mas aqueles mascarados se infiltram nas manifestações e afrontam a polícia…” Não, meu amigo. Se você se deu ao trabalho de diversificar suas fontes de informação, pode perceber claramente, inclusive pelas centenas de vídeos gravados, que a polícia não está só atrás de quem oculta o rosto (não tivesse o direito de bater em quem quer que seja). A PM tem agredido também, com uma violência bem focada e direcionada, em vários daqueles que tentam registrar as manifestações. Nem precisa pensar muito para saber por quê. Se não há registro da violência, não há provas.

Um dos relatos vem do fotógrafo Mauro Donato:

“O papel da imprensa é o de ser um olho. Um olho sem cor e crítico. O problema é que parece que a PM assumiu a incumbência de cegar este olho.
Os fotógrafos Adriano Lima (BrazilPhotoPress), Gabriela Biló (FuturaPress), Nelson Antoine (AssociatedPress), Marlene Bergamo (Folha de S.Paulo) e Paulo Ishizuca (Ninja) foram todos atacados na noite desta segunda-feira (21) de maneira articulada. Sim, articulada. No 3º Ato pela Educação, as agressões foram objetivas. Todo fotógrafo, cinegrafista ou streamer que se aproximasse de qualquer ocorrência, era rachaçado de maneira muito violenta.
É compreensível que manifestantes, polícia ou repórteres, sejam atingidos acidentalmente durante um conflito generalizado. Uma bala perdida, uma pedra perdida, uma garrafa perdida, um spray de pimenta borrifado em todas as direções. É do jogo. Algo totalmente diverso é ser agredido intencionalmente, diretamente. Analise as fotos e veja se há manifestantes por perto. Qual a finalidade de afastar-nos “gentilmente” da maneira como vemos nas fotos? Onde chegaremos com este procedimento? É inegável que a polícia veio obstinadamente para cima da imprensa com a intenção de não deixa-la trabalhar. Não quer que nada seja registrado, não quer que se divulguem suas arbitrariedades, seus violentos ataques histéricos. O fato de as agressões serem na região do rosto e na altura das câmeras é sintomático e revelador.
O objetivo está claro: afastar, cegar, calar a imprensa que está próxima e permitir (ou facilitar) a cobertura apenas das grandes redes, feitas a partir de seus helicópteros, com todo o distanciamento tanto físico quanto de compreensão que lhe são característicos. Quem não está por perto interpreta, inventa. E mantém o discurso simplista e tendencioso de vândalos versus ordem e progresso e seu reflexo no trânsito.
Eu ter sido mais um é apenas um detalhe, até porque não apanhei de maneira muito violenta. A policial que me agrediu era uma mulher e fraca. Não me tirou de campo. Não se trata, portanto, de mimimi de vítima e sim de uma preocupação com o andar da carruagem. A liberdade de imprensa é um santo de barro. Já tivemos o gravíssimo caso de Sérgio Silva O Retorno, cego desde junho e o recente (e covarde) espancamento deYan Boechat. Somados aos casos de agressão (e prisão!) aos socorristas do GAPP – Grupo de Apoio ao Protesto Popular e a André Zanardo dos Advogados Ativistas (ambas equipes imprescindíveis no suporte às manifestações), não estarei sendo pessimista em acreditar que o cenário é preocupante e sombrio.
O cerceamento ao qual a imprensa está sendo submetida, pelo menos aquela que se deseja independente, é muito mais assustador que as agressões físicas.
Como disse Tatiana Farah, “Sou repórter. (…) Não tenho o couro mais fino nem mais grosso do que ninguém que saiu dali apanhado, machucado e humilhado, seja a pessoa repórter, manifestante, passante” (Tatiana levou 2 tiros de bala de borracha no último sábado durante protesto contra o Instituto Royal). Só o que desejamos, é liberdade para trabalhar.”

Por conta dessas e outras, vai ter barulho. No Rio está organizada uma manifestação pro dia 31, como mostra o vídeo no início do post.

Em SP, teremos uma manifestação nessa segunda, dia 28, em defesa dos jornalistas atacados pela PM (acho que todos que apanharam da polícia merecem manifestação, mas não achei um evento geral em SP). A concentração será às 17h, na praça Roosevelt. Mais info aqui.

Leia mais:
A PM tem que acabar
Diálogos em tempos de revolta popular

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