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Certo dia, lá pelos anos 50, meu avô chegou em casa com uma novidade. Ele havia comprado de um colega de trabalho uma tal de “matéria plástica”, uma espécie de pano impermeável que você colocava nas costas para não molhar na chuva. Meu pai, ainda criança, ficou maravilhado, assim como os vizinhos. Aquilo resolvia um problema frequente: o de ter que trabalhar na lavoura debaixo da chuva e voltar para casa encharcado.

A descoberta era apenas um pedaço de plástico, que hoje passaria batido como um saco de lixo comum. Mas na época, para quem morava numa roça simples no interior de Minas Gerais, aquilo era ouro. Sessenta anos depois, é impossível passar uma hora sequer sem ver um pedaço de plástico na sua frente. É só você olhar ao redor. O computador no qual você lê este texto? Boa parte de plástico. A caneta? De plástico. A cadeira que você está sentado? Componentes de plástico. Seus sapatos, cartões de crédito, celular, relógios, boa parte dos objetos do nosso dia-a-dia são feitos inteiramente ou em parte desse material.

Com tanta abundância, o plástico não tem lá mais muito valor. Tanto que o maior destino dele é aterro, geralmente dentro de um saco de lixo, feito de – adivinha? Isso se for um objeto de sorte. Muitos produtos acabam indo parar na rua mesmo. Daí para o esgoto ou para um rio. De ambas as formas, o destino final é quase certo: o mar. O acúmulo desse material no oceano Pacífico é tão grande, que as correntes marítimas acabaram concentrando o lixo em um ponto e formando uma verdadeira “Ilha de Plástico“.*

Aí é que está outro problema: sabe aquele pedaço de “matéria plástica” que meu avô levou para casa nos anos 50? Ela ainda existe, em algum lugar. Seja num lixão, no meio do mato ou no mar, ela está lá, intacta. Isso porque não são 100 anos que vão fazer um material desse se decompor naturalmente e desaparecer. Portanto, se contarmos a invenção do plástico a partir do Nylon, lá pelos anos 30, é razoável se pensar que todo o plástico já produzido no mundo ainda está na natureza.

Esse assunto me veio a tona hoje depois de assistir esse videozinho abaixo, no fantástico blog Colossal. Está em inglês, mas as imagens são bem ilustrativas. Richard Lang e Judith Selby Lang passam os dias recolhendo pequenos objetos de plástico que encontram na praia perto de onde moram, no norte da Califórnia (EUA). Juntaram tanto material que começaram a fazer obras de arte com aquela matéria-prima de todas as cores.

One Plastic Beach from High Beam Media on Vimeo.

Essa história serve para repensarmos uma coisa: o plástico que jogamos fora todos os dias – é lixo? Ou será que são recursos valiosos da natureza que foram transformados pelo homem e que agora não têm mais valor para nós simplesmente porque o vemos como descartáveis? Como diz Richard: “O contrário da beleza não é o feio. O contrário da beleza é a indiferença”.

*Se você sabe inglês e quer saber mais sobre esse assunto, vale a pena ver a palestra do biólogo Charles Moore, o descobridor da ilha de lixo no Pacífico.

Hole*

Um dia o vazio se materializou na forma de uma pessoa. Era Pedro, o vazio com um nome. Descobriu que era oco naquelas tardes quentes em que o vento sopra devagar. Pois a brisa soprou sobre ele, e através dele passou. Foi assim que ele descobriu que estava destinado a não-ser.

As coisas que ele mais gostava de fazer eram, nessa ordem: dormir, ficar parado debaixo do chuveiro sentindo a água quente escorrer-lhe pelos ombros, e viajar por longas horas dentro de um carro ou de um ônibus. Apreciava por que eram não-fazeres, não-atividades. Eram momentos em que ele podia fazer nada sem ser cobrado, justamente porque eram horas convencionadas à espera. E Pedro vivia à espera.

Gostava de ler, mas isso não o tornava mais sábio, nem mais preenchido. É porque sendo feito de vazio, não havia nada nele que segurasse conhecimento, afeto ou lembrança. Assim, Pedro não se afeiçoava a ninguém, e nem sofria. Não retinha sentimentos, assim como não retinha sucessos em sua vida.

Pedro perdeu sua virgindade numa noite sem calor. Depois não a viu mais por muito tempo.

Podia se dizer que ele era um preguiçoso, mas ele preferia pensar que era um gosto pessoal.

Na escola, ele fazia o que lhe era dito. Não tinha idéias novas, nem era cobrado por isso. Ninguém esperava nada novo dele. Mas Pedro foi crescendo e os tempos mudaram. Chegou a hora em que os pais o chamaram num canto e começaram a falar de coisas com as quais ele não tinha tido contato até então: trabalho, sustento, independência. Até o momento Pedro se levantava e a comida estava na mesa, tomava banho e a roupa estava esperando por ele, pedia dinheiro e lhe era dado. Agora exigiam de Pedro que conseguisse o seu próprio dinheiro, arrmasse sua própria cama, fizesse sua própria comida.

Fazer coisas. Era algo com o qual ele não estava acostumado. Não podia simplesmente passar a existência em branco? Por que a sociedade exigia tanto dele? Ele só queria não-ser. Pedro pensou: o que aconteceria se ele se recusasse a ser alguma coisa? Não lhe ocorreu idéia alguma.

*Este conto foi escrito originalmente em setembro de 2008

A Marina, psicóloga de 27 anos, uma pessoa como eu e você, resolveu tentar esse desafio. Ela montou o blog Um Ano Sem Compras pra registrar a epopeia. É claro que tem regras e excessões. Ela ainda pode comprar comida, artigos de higiene e remédios, mas mesmo assim o desafio é grande. Suspiro só de pensar em ficar um ano sem comprar roupas, como fez a Jojo do Um Ano Sem Zara.

O objetivo disso tudo é refletir sobre o consumo e sobre o que julgamos ser necessário ou supérfluo. Por exemplo: eu amo comprar plantas mas… preciso mesmo de mais uma em casa? Em tempos de consumo desenfreado e propagandas onipresentes, pode ser uma boa pedida.

Fica a dica.

Clique na imagem para ir ao blog

Ps: Quer saber mais sobre consumo consciente? Dá uma olhada no site do Instituto Akatu.

Ps2: Créditos para o blog da Lu Monte, no qual eu vi essa dica.

Diálogo no táxi:

Taxista: Eu tô com uma conta aqui, mas não vai dar tempo de passar no banco pra pagar
Eu: ?
Tx: Aí eu te dou ela, você paga, e depois eu te dou o dinheiro
Eu: Acho que não vou passar por nenhum banco…
Tx: É coisa pouca, R$ 160.
Eu: Não… Eu nem tenho esse dinheiro
Tx: Então você quebra esse galho pra mim?
Eu: Me desculpe moço, não vai dar não!

Até que me atinei: ele falava com a mulher dele no celular!
Climão até o fim da corrida.

Depois que eu publiquei aquele texto enorme com as minhas impressões sobre a crise na Grécia, recebi um comentário muito interessante. Trata-se de duas cartas, uma de um alemão e uma de um grego, sobre a União Europeia e as dificuldades financeiras. As palavras falam por si só:

Leia até o fim esta resposta de um grego a uma carta enviada para a revista Stern escrita por um alemão que se sente ofendido com o “estilo de vida” grego. Traduzida por Sérgio Ribeiro, via Aventar.

“Há algum tempo, foi publicada , na revista, uma “carta aberta” de um cidadão alemão, Walter Wuelleenweber, dirigida a “caros gregos”, com um título e sub-título:

 

Depois da Alemanha ter tido de salvar os bancos, agora tem de salvar também a Grécia os gregos, que primeiros fizeram alquimias com o euro, agora, em vez de fazerem economias, fazem greves

Caros gregos, Desde 1981 pertencemos à mesma família. Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, enquanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela per capita de qualquer outro povo da U.E. Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo. Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos. O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós. No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo.

Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a durante anos fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm. Os gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos primeiros conhecimentos da Economia Nacional. Mas, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante!!!

 

Na semana seguinte, o Stern publicou uma carta aberta de um grego, dirigida a Wuelleenweber:

 

Caro Walter,

Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não “empregado público” como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas. O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!… não vás pensar que por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares. Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa.

Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs. A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes “comissões” aos nossos políticos para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso, que postos no mar, continuam tombados de costas para o ar. Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da Eurozona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, da JUSTIÇA e do CORRECTO.

Estimado Walter, Passou mais de meio século desde que a 2ª Guerra Mundial terminou. QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha deveria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia. Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em:

1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães por indemnizações, que ficou por pagar da 1ª Guerra Mundial;

2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA.

3. Os empréstimos em obrigações que contraíu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação.

4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoados inteiros, estradas, pontes, linhas férreas, portos, produto do III Reich, e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares, dos quais a Grécia não viu sequer uma nota.

5. As imensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38,960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., et.).

6. A tremenda e imensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega.

Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento-o. Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas. Amigo Walter: na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as que têm lucros anuais de 6,5 mil milhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei comprar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas problema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixaremos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA. Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por ai os vai obrigar a baixar o seu nível de vida, Perder os seus carros de luxo, as suas férias no estrangeiro, as suas excursões sexuais à Tailândia?

Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes “compatriotas” da Eurozona) pretendem que saíamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde. Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que jogamos se consumirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc. E, finalmente, Walter, devemos “acertar” um outro ponto importante, já que vocês também disso são devedores da Grécia: EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM!!! Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nosos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres. E EXIJO QUE SEJA AGORA!! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados.

Cordialmente, Georgios Psomás

O movimento contra a construção da usina de Belo Monte ganhou aliados poderosos: atores globais!

Ei dona Dilma e pessoal do “desenvolvimento acima de tudo”: vocês a acham que podem tudo? O povo pode mais! (tá ok, empolguei)

É a Gota D’ Água +10 from Movimento Gota d’ Agua on Vimeo.

Vale a pena entrar no site Gota D’água e assinar o manifesto.

Também vale conhecer o blog Belo Monte de Violências, do brilhante procurador da República no Pará, Felício Pontes Jr. Por si só esse site já vale outro post.

Por Barry Yanowitz

Occupy Wall Street

A Grécia está passando um mau bocado. Eu sei que é difícil para nós, que moramos em um país emergente, entender todo fuzuê sobre a crise econômica europeia. Afinal, o salário mínimo grego (que é o menor da Europa), vale cerca de 700 euros, contra uns 250 euros que recebem os trabalhadores brasileiros. Na Itália, quando são demitidos, os trabalhadores têm direito a um bom auxílio por dois anos. Os europeus têm a melhor infraestrutura, os melhores serviços, as melhores habitações. Então do que reclamam? Para mim também foi difícil entender no início. Mas o que está em jogo na Europa não é só um estilo de vida luxuoso.

Há algumas décadas, o Velho Mundo parecia ter atingido o equilíbrio ideal entre políticas sociais e uma sólida economia de mercado. Os países enriqueceram e o povo prosperou. Direitos dos trabalhadores e de minorias foram consolidados. A violência caiu e a expectativa de vida disparou. Mas a crise que abalou a economia americana desde 2008 vem fazendo com que a balança pese para o lado das grandes corporações.

A maioria dos países da zona do euro tem déficit orçamentário, ou seja: gasta mais do que ganha. Qualquer dona de casa sabe que isso significa enfiar a cara nas dívidas. Não deu outra. Quebrados, países como Portugal, Irlanda e Grécia se viram obrigados a pedir empréstimos de emergência. O FMI, o Banco Central Europeu e a União Europeia ajudaram. Mas em troca têm cobrado políticas de austeridade que ajudem a garantir que a dívida dos países será paga sem prejudicar a estabilidade do euro.

by *Bloco

Protesto português

Os governos passaram então a cortar gastos públicos, o que significa cortes de empregos e programas sociais e redução no valor de salários e aposentadorias. Ou seja: várias conquistas que garantem a qualidade de vida dos cidadãos europeus começam a se desfazer. Conversando com um amigo grego, eu perguntei: “mas vocês não têm uma constituição que garanta que esses direitos não possam ser mudados?” Ele disse que estão querendo alterar a lei para permitir que isso seja feito.

Imagine você se, ao invés de aumentar, resolvem reduzir os salários dos professores públicos. Pois é. O caminho é mais ou menos por aí. Se todo mundo estivesse apertando os cintos pelo bem do país, até que daria para aguentar. Mas o que tem deixado as pessoas indignadas é justamente o fato de se estar cobrando da população para se dar aos grandes credores e especuladores (leia-se: bancos e acionistas). E mais: sem nenhum tipo de consulta. É como disse o deputado português do Parlamento Europeu, Miguel Portas, no vídeo abaixo. “Ficou muito claro que foi a dupla de Sarkozy [o presidente francês] e da senhora Merkel [a chanceler alemã], a dupla “Merkozy”, que tomou todas as decisões pelos gregos. E nenhum povo gosta de ser mandado, espezinhado e tratado como se valesse muito menos que os mercados financeiros”.

O resultado? Protestos em massa, é claro. Não só na Grécia, Irlanda e Portugal. Até em Nova York surgiu o movimento “Occupy Wall Street“. Porém, quando o primeiro-ministro grego “teve um momento de sanidade”, como diz Miguel Portas, e convocou um referendo, foi duramente criticado. Diz o deputado: “o que aconteceu na Grécia ao longo desta semana não foi, ao contrário do que muitos comentadores disseram, um atitude absurda e esdrúxula de um primeiro ministro instável e que resolveu propor um referendo num momento de desespero. Jamais um primeiro-ministro proporia ao seu povo um referendo, não fosse o fato de ele se sentir absolutamente entalado entre, por um lado as imposições dos programas de austeridade vindos dos credores e por outro lado um povo que já está muito castigado e indignado”.

by how will i ever

Protesto grego

Ele coloca as coisas de um modo bem claro: “os líderes políticos ouvem todos os dias os mercados financeiros. Acordam todos os dias a saber como estão as bolsas. Mas ai se algum deles quer ouvir o povo!”. Seriam a democracia e o mercado financeiro inconciliáveis?

O pior é que, querendo ou não, a Europa Ocidental é o modelo para o resto do mundo. Nesse momento, esse modelo parece estar tomando uma direção vergonhosa. Vale a pena sacrificar o bem-estar social de alguns países para salvar o euro? Conseguirá o povo – europeu ou não – fazer oposição a essas políticas a ponto de impedí-las?

São cenas dos próximos capítulos.

Vale a pena ver também:

O divórcio entre capitalismo e democracia – Luis Nassif

Infográfico da BBC que explica direitinho

I

Eu tentando improvisar um portunhol com a porto-riquenha no albergue em Lisboa.

Ela: te vas a salir hoy? (significa: vai sair hoje? porque “hoje” em espanhol se diz “hoy”, mas a pronúncia é como em “oi”)
Eu não entendi o que ela disse e perguntei: oi?
Ela: sí, hoy.
Eu: oi?
Ela: sí.
Eu: oi?
Ela: hoy.
Eu: oi?
Ela: sí!
Eu: ok, let’s speak english…

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II

Três brasileiras e uma australiana/neo-zelandesa em um restaurante em Barcelona, sujas até as orelhas de paella e falando em inglês sobre futebol.

Brasileira 1: a rivalidade entre Brasil e Argentina no futebol é bem  antiga. Agora eles têm um novo jogador, que dizem que pode se tornar o novo Maradona.
Eu: it’s Messi.
Australiana: yes, it’s messy (se referindo à lambança que eu estava fazendo com o camarão).

Foi aí que eu descobri que os australianos têm tanto interesse em futebol quanto nós temos em hóquei.

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III

Durante um protesto da extrema direita em Londres.

Um dos líderes, tentando me explicar o motivo da manifestação: imagina se um monte de estrangeiros fosse para o Brasil e começasse a querer mudar as leis por lá?
Eu: mas foi assim que o Brasil foi feito!

E paramos por aí.

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*Inaugurando a seção de variedades nada-a-ver do blog. =D

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Ps: e eu coloco hífen onde eu quiser mesmo!

O SUS que temos

Rolou por aí uma “campanha” para que o Lula se trate pelo SUS. Eu já elogiei o Cristóvam Buarque quando ele criou um projeto de lei que obrigaria os políticos a matricular os filhos em escolas públicas*. Mas sobre se o Lula deveria ou não se tratar no Sistema Único de Saúde, acho que a opinião mais sensata e conhecedora da situação veio de uma moça chamada Nina Crintzs, que tem um blog que se chama PurpleSofá. Vale a pena ler o post inteiro, no qual ela diz:

“Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS.”

Isso eu não sabia.

Gracinha de ilustração do Frits Ahlefeldt. Clique pra conhecer mais

E para quem quiser conhecer mais sobre o SUS (sem ter que ficar doente), pode ouvir a premiada série de reportagens do jornalista Gustavo Cunha. Se chama: O SUS que temos, o SUS que queremos. Foi veiculada em 2007, mas creio que os problemas são bem atuais.

*opa, alguém disse que o buraco é mais embaixo

by elvis_payne, cc on Flickr

Lavando roupa no tempo da avó

Pois bem, depois de muito xingar no twitter reclamar sobre o meu episódio com a Ricardo Eletro eu acabei cancelando a compra e pedindo a mesma máquina de lavar nas Casas Bahia. Até consegui meu dinheiro de volta, mas a história não acaba aí. No meio do processo mandei um e-mail para o Ministério Público de São Paulo (consumidor[arroba]mp.sp.gov.br).

Depois de um tempo, recebi o seguinte e-mail:

“Prezado(a) Senhor(a),

                 Informo a Vossa Senhoria que vosso email com informações sobre práticas da RICARDO ELETRO, foi recebido neste órgão ministerial e registrado como Representação de número em epígrafe. Por ser identificada conexão de objetos, foi juntada ao espelho da Ação Civil Pública nº 583.00.2011.132112-7, feito anterior e ainda em trâmite junto à 35ª Vara Cível Central de São Paulo/SP, que trata do mesmo assunto. O processo é público e poderá ser consultado por qualquer interessado junto ao 35º Ofício Judicial desta Comarca (Fórum João Mendes). Não obstante, foram encaminhadas cópias da referida representação à Central de Inquéritos Policiais e Processos para eventuais providências no âmbito daquela Promotoria de Justiça.”

Ou seja: minha reclamação (e a de muitos outros consumidores juntos) deu resultado. O Ministério Público de São Paulo entrou com uma Ação Civil Pública contra a Ricardo Eletro! A ação é pública e pode ser consultada aqui. Não consegui olhar ainda o que é pedido no processo, mas já posso dizer que o valor da causa é de R$200 mil.

Ressalto aqui (e a própria promotora ressalta no e-mail) que o Ministério Público não vai resolver o meu caso em particular. O MP é um órgão para defender os direitos da sociedade, os direitos coletivos. Como muitas pessoas enviaram suas reclamações para lá, os promotores concluíram que a Ricardo Eletro não só está lesando consumidores individualmente, mas causando um prejuízo para toda a sociedade.  O bacana é isso: a conquista não é só minha.

Quando conseguir entender em que pé está essa ação, conto aqui.

Em tempo: descobri que a coisa tá tão feia que foi criado um blog, o Ricardo Eletro Nunca Mais.

Valor de mercado

Soldado anônimo numa imagem anônima*

Se 1 israelense = 25 egípcios = 1.027 palestinos

Então 1 egípcio equivale a 41,08 palestinos?

Uma reflexão que vale a pena ser feita, principalmente após ler o texto “Impessoas“, de Noam Chomsky.

Para saber mais sobre a vida entre Israel e Palestina, também vale a pena conferir o documentário “Sobre Futebol e Barreiras“.

*A bandeira diz: “Não há bandeira grande o bastante para cobrir a vergonha de se matar pessoas inocentes”.

Um grupo de designers franceses percebeu que a cidade em que viviam precisava ser mais criativa e humana. Então decidiram criar pequenas ferramentas que transformavam e davam novos usos para bancos, cabines telefônicas, máquinas de café. Assim, as pessoas que iriam jogar uma sacola no lixo poderiam deixar a embalagem em um compartimento especial para que outros reaproveitassem o material. Cabines telefônicas ganharam carregadores de celular e muros ásperos ganharam ganchos para pendurar roupas.

Achei interessante. Me fez pensar que as pessoas que usam os espaços públicos são justamente as que têm mais conhecimento para interferir na cidade.

A vida em um dia

Ah, as maravilhas que a tecnologia nos proporciona… Como por exemplo testemunhar o que aconteceu na vida de várias pessoas ao redor do mundo no dia 24 de julho de 2010.

O diretor Kevin Macdonald e o produtor Ridley Scott fizeram um pedido no You Tube para que as pessoas enviassem um fragmento de suas vidas nesse dia em forma de vídeo. O resultado foi esse:

Flickr by Ana_Cotta

É o fim?

Pois é. O projeto do novo Código Florestal foi aprovado na Câmara dos Deputados, usando argumentos que passam bem longe das florestas. Esse vídeo e algumas leituras (links no fim do post) explicam direitinho em que enrascada estamos nos metendo.

Mas ainda dá tempo de reverter esse quadro. O projeto está no Senado, e é hora de pressionar os nossos ilustres senadores. Lembra o candidato no qual você votou no ano passado? Pois é. Tá na hora de cobrar dele uma postura condizente com a confiança que você depositou nele. O e-mail do fulano e dos outros 80 parlamentares pode ser encontrado aqui. Eu mesma já enviei mensagens para os três representantes de Minas e os três de São Paulo. Tudo que recebi foi uma resposta automática, mas… meslhor que nada, né?

Outras formas de mostrar sua opinião sobre esse assunto é assinar a petição da Avaaz e votar “não’ ao projeto no Vote na Web, site que reproduz as votações do Congresso e disponibiliza para a população opinar.

Além disso vale falar do assunto em blogs, exigir do jornal que você lê que fale sobre o assunto, comentar nas notícias divulgadas. E é claro, vale se juntar às manifestações nas ruas do Rio, em São Paulo e outras cidades. Se você souber de mais formas de fazer barulho contra esse projeto ou a programação de novas manifestações, divulge nos comentários.

Lembra você que vive reclamando que a política do Brasil não presta? Agora é a hora de fazer algo para mudar isso. E se a gente aprovou a lei da Ficha Limpa, a gente consegue se mobilizar contra o novo Código [da devastação] Florestal.

Para entender o assunto:

- Entrevista com Marina Silva no Roda Viva
- Post da Eliane Brum
- Manifesto de 38 entidades da sociedade civil, incliundo OAB e CNBB
- Pesquisa do DataFolha
- Íntegra do projeto
- Lista dos deputados que aprovaram o projeto

Vale a pena conferir esse vídeo, que traz uma nova visão sobre a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu.

Recentemente, o projeto obteve a licença do Ibama. O Ministério Público ainda luta para impedir a construção, mas considera esta uma causa perdida. Me faz pensar: até onde vale a pena ir para conseguir mais energia? E quanto ao potencial para energia solar que o Brasil tem? Não vale a pena ser avaliado?

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