Em terra de cego…

Postado em Atualizado em

Esse texto foi publicado em um outro blog meu, que anda meio abandonado, o Papel sem Pauta. Foi escrito em 21 de setembro de 2008.

Acho que cabe bem aqui.

“Fazia algum tempo que eu não sofria de alguma forma um preconceito. Não pertenço a muitas minorias na verdade. Tirando o fato de ser mulher, que até não costuma ser tão limitante, costumo ser bem atendida nos lugares. Me lembro de sentir preconceito quando eu era criança, geralmente não se dá muita atenção a elas. Hoje ainda percebo isso um pouco pelo fator feminino, sempre se espera que o homem pague a conta, que o chopp seja pra ele, que ele entre na briga.

Pois bem, mas o fato é que ontem, fui a um restaurante mais arrumadinho. Não estava vestida de modo desleixado nem nada, estava bem arrumada. Sentei, a procura de um garçon com o cardápio. Nada de aparecer um. Depois de um tempo, uma casal um pouco mais velho se senta na mesa do lado. Eis que surge imediatamente um garçon, com dois cardápios na bandeja, me comprimenta amigavelmente, passa por mim e vai entregar os dois cardápios para o casal da mesa do lado.

Fiquei pensando, e deve ser a sensação que muita gente tem por aí quando é desrepeitado pela cor, pela orientação sexual ou simplesmente por usar chinelos: “O que foi que eu fiz?”. Cheguei à infeliz conclusão de que o casal do lado tinha cara de quem ia gastar mais dinheiro do que eu (verdade, diga-se de passagem). Então o garçon não via pessoas, que chegaram umas antes das outras, e estão esperando. Ele só via cifrões na frente dele.

Continuei na minha luta por atenção e por um cardápio. Foi aí que apareceu um garçon gentil, que foi o único que nos atendeu durante toda a noite, porque era o único que via quando eu chamava. Mas o fato mais especial nele era este: ele só enxergava com um olho. Tinha um tipo de problema no olho direito que deixa as pessoas com a iris embranquecida.

Foi que aí que eu percebi. Para ver as pessoas ao nosso redor a gente nem sempre usa os olhos.”

Um comentário em “Em terra de cego…

    Felipe Gruetzmacher disse:
    7.março.2010 às 1:41

    Gostei muito do texto.

    Sensível, verdadeiro e muito interessante.

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