Uma nação de malandros hipócritas

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by altovolta on Flickr

*Atenção: depois de ler esse texto, leia esse, no qual eu volto atrás sobre essa definição (sim, a vida é um eterno ir-e-vir).

Se há algo em comum entre brasileiros das mais diversas origens é a descrença no sistema político. Brancos, negros, idosos, pré-adolescentes, donas-de-casa rechonchudas, intelectuais de óculos de aros grossos, a maioria parece acreditar que lá em Brasíla (bem longe de nós) há um ninho de corrupção. Ah, e eles tampouco acreditam no Brasil como nação próspera. Sabe por quê? Porque o mal do Brasil é a corrupção na política e no sistema público. Lá, lá longe.

Isso me lembra uma frase do filme V de Vingança: “Há algo de errado com esse pais, não há? Vocês também sentem isso, eu sei. Mas se vocês estão procurando por um culpado, basta se olhar no espelho”. Essa frase nunca foi tão verdade, um dia depois das eleições. Um dia depois de um palhaço que usa o slogan “pior do que está não fica” não só ter sido o deputado mais votado de São Paulo, como ter levado com ele meia dúzia de políticos – esses sim – com carreiras duvidosas.

Tenho a tese de que ninguém faz mal a si mesmo que não julgue que mereça. Se o povo elegeu Tiririca como deputado, é porque tem a sensação de que é isso que merece. Esse é o povo brasileiro, sambando em meio à criatividade do jeitinho malandro e a seriedade da construção de instituições políticas sólidas.

Não sou antropóloga mais do qualquer um que tenha feito um curso de Humanas, mas não precisa muito para observar que o Brasil é corrupto desde seu nascimento. Portugueses comprando índios com objetos que para eles não tinham o menor valor? Escravos fingindo que dançavam enquanto praticavam lutas mortais? O hábito de fazer as coisas “para inglês ver”? Colocar um menino de 15 (ou 12 sei lá) para ser imperador enquanto a turminha da elite governava por detrás? As leis, como a do cigarro (a mais velha delas) que simplesmente “não pegam”??

Meia dúzia de exemplos mostra que o jeitinho esteve em todas as classes sociais, todas as épocas, seja para sobrevivência, ascenção ou manutenção do status quo. É isso que nos une. Somos todos malandros hipócritas. Enchemos a boca para falar mal do governo e dos políticos enquanto usamos de nossa posição (inclusive de jornalistas) para poder furar a fila do Detran. Tenho amigos que – como todos – abominam casos como o do “panetonegate” do Arruda e os desmandos das famílias Sarney e Magalhães. Mas quando termina a conversa de bar e eles querem ir ao cinema, alteram a data de uma boleta velha da faculdade para poder pagar meia entrada. E não só fazem isso como agem com tanta naturalidade que quem aponta que está errado faz papel de chata. A desculpa usada é que o preço do cinema é exorbitante. Claro que é exorbitante, todo mundo burla a meia-entrada, a empresa não quer perder dinheiro com isso e reajusta o preço da inteira.

Só para constar, falsificação de documentos é crime previsto no código penal, principalmente quando a instituição que está tendo seu documento usado indevidamente é pública:

Título X – Dos Crimes Contra a Fé Pública
Capítulo III – Da Falsidade Documental

Art. 296 – Falsificar, fabricando-os ou alterando-os:

I – selo público destinado a autenticar atos oficiais da União, de Estado ou de Município;
II – selo ou sinal atribuído por lei a entidade de direito público, ou a autoridade, ou sinal público de tabelião:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.

1º – Incorre nas mesmas penas:

III – quem altera, falsifica ou faz uso indevido de marcas, logotipos, siglas ou quaisquer outros símbolos utilizados ou identificadores de órgãos ou entidades da Administração Pública.

Que país é esse onde agir errado é bom e agir certo é ruim? Nossos políticos não são nada menos do que o espelho do povo. Não tem niguém lá que não poderia estar “do lado de cá”, no papel de crítico. A única diferença é que eles sabem usar o poder que têm. Nós não.

Um comentário em “Uma nação de malandros hipócritas

    Voltando atrás « Nos olhos de quem vê disse:
    12.outubro.2010 às 22:27

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