Santa Maria e a nossa responsabilidade

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Tem circulado uma carta na internet, a princípio escrita por uma das vítimas do incêndio na boate Kiss em Santa Maria. No texto a menina comenta sobre o momento no qual a Dilma chorou ao comentar sobre a tragédia ou visitar os parentes das vítimas e literalmente pede para a presidente “engolir o choro” e fazer alguma coisa.

Clique aqui para ler a carta.

Pois é. Não precisa conhecer muito de política para dizer que muita gente trata governantes e políticos como deuses ou demônios. Num momento eles são os grandes benfeitores do País, aqueles que “colocaram o Brasil nos trilhos” e no outro eles são os responsáveis por toda desgraça que acontece, da consciência do funcionário não-treinado à epidemia de crack nas ruas.

É de todos nós.
É de todos nós.

Existe o hábito de ver os governantes como os únicos jogadores do jogo do soberania brasileira, enquanto todos nós somos apenas expectadores que ficam xingando, lá da arquibancada. Como se não tivéssemos nada a ver com as políticas públicas e com o comportamento da sociedade.

Há alguns anos eu trabalhei numa ONG chamada Oficina de Imagens e, entre outros trabalhos, ajudava num programa da Unicef chamado “Município Aprovado“. A ideia ajudar as prefeituras das pequenas cidades do norte de Minas a melhorar os indicadores sociais do município, como taxa de desnutrição, acesso à escola e etc. No final, as cidades que conseguissem avançar ganhavam um selo reconhecido internacionalmente. E o que se via era que, por mais dinheiro que uma região tivesse, a mudança só acontecia de verdade quando a comunidade inteira ajudava.

Ainda me lembro do que me disse um dos coordenadores do programa, algo assim: “As pessoas acham que o papel dos governantes é resolver todos os problemas da cidade para elas. Mas a verdade é que se as pessoas não se envolverem, as prefeituras e os governos não dão conta de mudar o cenário sozinhos”.

No final a lição de Santa Maria é essa. O que matou mais de 200 jovens não foi o fogo ou a fumaça. Foi o descaso e a negligência com a segurança das outras pessoas, cometidas tanto pelos órgãos públicos quanto pelos empresários e pelos músicos em nome da economia ou da comodidade. Agora pare e pense: quantas vezes você já burlou as regras em nome da comodidade e da economia?

Deixa eu te ajudar. Você já falsificou carteirinha de estudante? Já dirigiu depois de beber? Já pediu pra aquele médico amigão da família fazer uma receita de remédio controlado, porque você precisa viajar e a cartela está no fim? Já furou fila? E essa vai para os amiguinhos jornalistas: você já usou sua influência profissional para ser atendido antes em órgãos públicos ou entrar sem pagar em museus e shows?

Pois é. Que tal se, além de culpar a todos os governantes, empresários e políticos do país, a gente parasse para pensar e colocasse a mão na consciência?

Quem quiser mais sobre esse assunto, também recomendo o texto do Antônio Prata, que está fantástico.

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