Os Guaranis-Caiovás e o ativismo de sofá

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Nos últimos dias uma mensagem no mínimo dolorosa se espalhou pelas redes sociais. Cerca de 170 indígenas da etnia Guarani-Caiová lançaram uma carta aberta na qual declaram a sua própria extinção, caso sejam expulsos de suas terras à beira de um rio no estado do Mato Grosso do Sul. Eles não precisam insistir na ameaça de suicídio*, porque isso já está acontecendo. De acordo com o Ministério da Saúde, 555 Guaranis-Caiovás se mataram desde o ano 2000, a maioria jovens homens.

Crédito: Agência Brasil
Cruzes em frente ao Congresso Nacional marcam protesto dos Guarani-Caoivás

Esses dados de tragédia coletiva fez muita gente divulgar as notícias e artigos relacionados ao tema, e assinar uma petição. Inclusive eu.

Apesar de ser impossível ficar imune ao desespero dos indígenas, e de sentir que uma assinatura numa página do Avaaz seja o melhor que eu possa fazer por essas pessoas, não posso deixar de me perguntar:

É possível se envolver em uma causa a distância?

É legítimo que eu, uma mulher branca da cidade, que nunca pisou no Mato Grosso do Sul, que nunca viu “um índio de verdade”, que não vive a realidade dessas pessoas e que ainda está em dúvida se escreve “kaiowá” ou “caiová”, é legítimo que eu me envolva nisso? Por que de certo modo, ao clicar naquele botão de “compartilhar”, sentada aqui na minha cadeira giratória, debaixo do ar condicionado e das lâmpadas florescentes, eu não consigo deixar de me sentir uma fraude.

Os “ativistas de sofá” podem ajudar a dar a visibilidade necessária para determinadas causas e criar aquele clamor popular que pode influenciar decisões políticas. Mas em muitos casos podem também se deixar levar pela emoção e acabar promovendo uma espécie de linchamento virtual dos candidatos a vilão em questão.

Apesar de realmente só ter conhecido um lado da questão, é fácil perceber que há algo de estranho nessa ordem judicial de despejo. Acho que nesse caso em particular, quando divulgamos artigos, notícias e petições sobre os Guarani-Caiová, não estamos apenas bancando os sabichões num caso que não conhecemos. Talvez estejamos apenas dizendo: “ok, eu não conheço essas pessoas, mas o sofrimento delas me toca”. E se isso gerar pelo menos uma nota de esclarecimento do governo já é um grande passo para aqueles que não têm um computador e um botão de “curtir” para gerar alarde.

Links sobre esse caso que valem a pena visitar:

“Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui” – artigo da Eliane Brum
Petição da Avaaz

*Em tempo: o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) esclarece que há diferenças entre “morte coletiva” e “suicídio coletivo”, e diz que os Guarani-Kaiowá quiseram dizer que irão se recusar a sair da terra, mesmo que isso signifique a morte de toda a tribo: leia a entrevista aqui.

4 comentários em “Os Guaranis-Caiovás e o ativismo de sofá

    Daniel Marleon disse:
    25.outubro.2012 às 13:05

    Nossa eu estou matutando as mesmas coisas hoje , estou procurando as causas disso tudo e não acho o material necessario só aparece a carta que está sendo amplamente divulgada, assinei a petição também mas não existe só esse caso , existe também o fato da funai ser um orgão de merda , existe casos de varios indios “civilizados” que negociam terras, enfim concordo com você em varios pontos…

    Maria Raquel Silveira disse:
    24.outubro.2012 às 17:28

    Oi Larissa, gostei de seu comentário. Obrigada.
    Penso que ao denunciarmos certas ações estamos de alguma forma participando das mesmas, nos posicionando a respeito.

    Zé Carlos disse:
    24.outubro.2012 às 4:54

    Muito bom seu blog. Já está nos favoritos.

      Larissa Veloso respondido:
      24.outubro.2012 às 14:06

      Obrigada! =D

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