Sobre o vazio

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Imagine comigo a seguinte situação. Um amigo senta para conversar com você e te conta: ele tem uma doença. É uma disfunção hormonal no cérebro que se manifesta em crises de tempos em tempos. O mal pode impedi-lo de trabalhar, estudar e inclusive ter uma família. E o pior: quanto mais vezes os sintomas se manifestam, mais é provável que eles voltem a atacar, com ou sem tratamento.

A reação da maioria das pessoas (que se julgam boas amigas) seria de buscar compreender e amparar o enfermo.

Agora imagine outra situação: você tem um amigo que tem tudo na vida. É inteligente, bem-sucedido, tem uma família cheia de saúde e é muito popular. Mas um dia ele passa a demonstrar desinteresse no trabalho, não sai mais com a turma, só reclama e chega até a ficar agressivo em algumas situações. Um dia ele senta com você e te conta: ele está com depressão.

Qual seria a sua reação? Bons amigos ou não, muita gente reage com descrença. O cara tem tudo na vida, está triste por quê? Isso é frescura! Chega até ser injustiça com os menos afortunados um cara desses gastar seu tempo chorando a toa.

O que acontece é que essas são duas maneiras diferentes de se contar a mesma história.

A depressão, doença que ataca na maioria das vezes as mulheres, é fortemente discriminalizada. Muito pouca gente sabe, mas ela pode ter duas causas, simultâneas ou não: uma causa externa (depresão exógena) e/ou uma causa interna (depressão endógena).

A depressão exógena acontece com todos. É aquela tristeza que ataca quando se perde um ente querido ou quando se é demitido. Já a endógena é hereditária e na maioria das vezes ataca em ciclos. A pessoa vive normalmente por anos ou meses e derrepente tem uma forte queda de ânimo, independente de motivos para isso. Não há como evitar a mudança, é fisiológico.

Aí é que está o complicado da questão: é difícil para quem está de fora compreender por quê a pessoa amada está chorando sem motivo. É uma sensação de incompreensão e de impotência muito grande. Afinal, qual é o limite entre fazer corpo mole e uma dor incontrolável?

Falo tudo isso com a experiência de ter uma pessoa próxima de mim, muito amada, que sofre desse mal há muitos anos e teve sua vida devastada pelo vazio. A tristeza de ver alguém que você ama sofrer, definhar na sua frente, sem poder fazer absolutamente nada, é devastadora. Demorei anos para aceitar essa condição, e digo que ainda não consigo lidar bem com ela.

Mas se não posso ajudar quem eu amo, escrevo esse texto na esperança de ajudar parentes e amigos a compreender um pouquinho mais desse mal silencioso e entender que um dia, por mais distante que seja, a dor vai passar.

Um comentário em “Sobre o vazio

    Mariana Congo disse:
    29.maio.2010 às 11:33

    O difícil é entender mesmo. Convivo com isso também.

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