Protesto na Paulista: quando bolivianos, caras-pintadas e surdos se encontram na avenida

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Acabando de voltar da avenida Paulista no coração de São Paulo, onde me deparei com uma cena surreal.

19h30:

1. Um grupo de mais de 300 bolivianos protesta em frente ao consulado da Bolívia. Eles pedem justiça pela morte cruel de um menino de cinco anos durante um assalto. Em espanhol eles pedem a saída do cônsul e gritam “Justicia paraguaya!” (foi o que eu entendi). A maioria é de homens jovens e há algumas mães que carregam bebês no colo. Umas três bandeiras da Bolívia são agitadas em meio às pessoas.

América Latina no coração de SP

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2. Na mesma pista da avenida, uns 200 metros depois do Masp, desponta um grupo de mais ou menos 100 pessoas, munidas de faixas e brandeiras do Brasil. Elas gritam “vem pra rua, vem, contra a corrupção!” e pedem a saída de Renan Calheiros. São na maioria mulheres e homens brancos e jovens. Alguns têm as caras pintadas de verde e amarelo.

3. Entre os jovens que gritam contra a corrupção há um grupo de mais ou menos 20 rapazes e moças que sopram apitos e gesticulam o tempo todo. São os surdos, em protesto contra o fato de a Dilma ter “esquecido” de disponibilizar a tradução em libras nos últimos dois pronunciamentos. A presidente acabou falando para o país inteiro, menos para os surdos. Falha federal.

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Há um momento em que os três grupos se veem juntos, ocupando o mesmo espaço. Eu, atrasada mas curiosa, paro para ver o que vai sair daquele encontro de mundos tão distintos nas esquinas de SP. Sinto que também é um acontecimento que simboliza muito o que o Brasil tem vivido: um encontro de movimentos que não necessariamente se excluem, mas que não sabem muito bem como dialogar.

Os manifestantes anti-corrupção “trombam” com a passeata dos bolivianos e ficam temporariamente perdidos. Alguns se postam à margem da aglomeração e levantam os cartazes com o “fora Renan”. Os bolivianos de certa forma recebem aquilo como um apoio e começam a entoar as palavras de ordem pedindo a cabeça do cônsul, mas em espanhol é quase impossível entender, e os manifestantes “brasileiros” ficam boiando. Os surdos apitam o tempo inteiro (eles também fizeram vários comentários entre si, mas eu sou analfabeta em libras).

Depois de alguns minutos um representante do movimento anti-corrução vai até onde se concentram os bolivianos mais exaltados e eles começam a dialogar. Espero para ver se as manifestações vão se unir, talvez gritar contra a corrupção do cônsul, mas as negociações demoram muito. Pergunto a um dos caras-pintadas se eles vão se juntar aos bolivianos, mas ele diz que não faz a menor ideia. Tenho que sair correndo para chegar ao meu destino, a 200 metros dali: o vão livre do Masp, onde o professor mineiro de Direito Túlio Vianna já havia começado uma aula aberta sobre a desmilitarização da PM.

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22h:

Depois de debater com inúmeras pessoas das quais eu nem sei o nome (depois explico), volto para o metrô e me deparo ainda com os bolivianos. Um grupo já menor, de cerca de 30, penduram um boneco (o cônsul, imagino) no portão do consulado, onde há vários cartazes em portunhol. Um outro grupo de mais ou menos 50 bolivianos chega em passeata, interrompendo pouco menos de duas faixas da avenida Paulista. Eles gritam: “Qué queremos?” “Justicia!” “Y cuando queremos?” “Ahora!” “Cuando, carajo?” “Ahora, carajo!” “Que caia el cónsul! Que caia el cónsul!”. Pelo menos foi isso que o meu portunhol conseguiu detectar.

Na pista do outro lado, um grupo com agora uns 100 caras-pintadas segura uma faixa gigante com os dizeres “Fora Renan”. Apesar de o número de manifestantes ser relativamente pequeno, eles ocupam toda a pista no sentido Consolação. É engraçado porque, de frente, encobertos pela faixa, parece que é uma grande manifestação. Mas quando você olha de lado, vê que a passeata se compõe de, no máximo, cinco fileiras de pessoas. Minha intuição me diz que isso também é significativo de alguns protestos no Brasil, que são grandes em suas causas, mas vazios no conteúdo.

Eu sei que parece grande, mas era só uma casquinha (é sério)
Eu sei que parece grande, mas era só uma casquinha (é sério)

Já era tarde, então segui pra casa matutando todas as visões do dia. No metrô ainda me deparo com um grupo de uns 20 adolescentes cantando músicas gospel aos berros dentro do vagão. Na estação Consolação, um funcionário da Via Quatro e um passageiro com um vaso enorme de orquídeas arrastam um homem semi-inconsciente para fora de um vagão (bêbado ou passando mal, não deu pra ver). Sigo apressada para casa, um pouco apreensiva com o que vai ser disso tudo, mas feliz de ver a cidade mais viva e nua do que nunca.

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