Aqueles que não ouvem a revolução*

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Revolução para todos
Revolução para todos

Assim como a maioria de vocês (acredito eu), fiquei extremamente tocada com o que vem acontecendo nas ruas todos os dias. Não são só manifestações, a atmosfera mudou, o nosso modo de pensar mudou. A diferença se vê nas conversas de bar, no papo com o porteiro, no conselho do garçom e, principalmente nas redes sociais.

Depois de tudo o que aconteceu em São Paulo no dia 13 de junho, a internet se consolidou como uma das mais importantes ferramentas de informação. Se eu soubesse contar o futuro, diria que esse foi o dia em que as redes sociais ultrapassaram a TV. Ultrapassaram porque nossos teclados foram mais velozes, nossas câmeras mais ágeis e o desejo de compartilhar a informação, a verdadeira informação, sem filtros, foi mais intenso.

Ainda não consegui reunir todos os textos e vídeos importantíssimos em um só lugar, mas tenho certeza que ambas as listas já passam dos 30 itens. Afinal, foi através dos vídeos que soubemos o que realmente se passou nas ruas, e vimos a forma como muitos governantes ainda têm recebido reivindicações legítimas de manifestantes pacíficos. Não se enganem, as balas não são só para os vândalos.

Nessa ânsia de todos participarem, também há muita desinformação. Muita gente que grita que a Dilma é culpada pela truculência da PM (que na verdade é de responsabilidade do governador), muita gente que pede pra Dilma expulsar o Renan do Senado (a cassação de parlamentares tem que ser decidida pelo Congresso Nacional) e que clama pelo fechamento do Congresso e pelo fim dos partidos políticos (medidas autoritárias só vistas em tempos de AI-5). Portanto ficou claro para mim que o diálogo, a educação e a troca de ideias é uma das questões mais importantes agora, e é onde eu pretendo atuar. 

Fui então me juntar a vários comunicadores em uma Assembleia Popular Temática que aconteceu hoje no vão livre do Masp, aqui em SP, e cujo tema era Democracia na Mídia. Chegando lá várias pessoas se sucediam num mini palanque, expondo sua opinião, fazendo propostas práticas, como a criação de uma central de informações populares, ou de uma espécie de agência de notícias do povo. Tinha sindicalista, jornalista, professores falando. Teve gente que gritou, teve gente que falou baixinho e não deu pra ouvir, teve gente que até cantou. E eu fiquei lá ouvindo, gostando da festa, mas não me sentido especialmente atraída por esse ou aquele tema.

Até que um jovem subiu no palanquinho e começou a gesticular. Ficou lá gesticulando, fazendo caras e bocas e não falando nada. E eu fiquei totalmente sem entender aquilo, até que a intérprete começou a falar. Ele estava falando em libras, e ela traduzia para a nossa linguagem. Em pouco tempo ficou claro que uma parte importante da sociedade havia ficado à margem da nossa mega-revolução baseada na tecnologia: os surdos. A principal queixa deles é que os dois pronunciamentos da presidente Dilma não haviam sido traduzidos para libras ou sequer sido legendados (eu notei isso, porque estava na academia na hora e não pude acompanhar pela TV, que geralmente fica com o SAP acionado).

Aí que me deu um estalo: todos aqueles vídeos que mudaram a minha visão sobre as ruas não adiantaram em nada para eles, simplesmente pelo fato de que não estavam legendados. Cara, como nós não pensamos nisso antes? É claro que somos fruto de uma sociedade individualista e excludente, e a própria mudança não surgiria com linguagem nova.

No fim, troquei cartões com os surdos e conversei com alguns deles com a ajuda de um intérprete, já que ali quem não conseguia se comunicar era eu. Fiquei super motivada a ajudar, a criar grupos de legendagem colaborativa, campanhas de conscientização e vídeos explicativos para incluir toda a comunidade mundial e intergaláctica de surdos nos mínimos detalhes da revolução!!! E é claro que a pessoa se empolgou além da conta, prometeu mundos e fundos e se atirou de cabeça numa causa que não conhece (olá, meu nome é Larissa e eu sou aficionada por projetos sociais trabalhosos ainda não iniciados). Mas realmente fiquei tocada por como algo que é tão simples pra nós pode ser tão excludente.

Portanto faço um apelo. Ou melhor, lanço uma campanha: legende seus vídeos! Legende os vídeos que você gostou, peça para quem divulgou legendar. É claro que isso não é o bastante, porque grande parte dos surdos se comunica em libras e não em português, mas já é uma ajuda. Num tempo em que mais do que nunca precisamos da difusão de informações, não podemos nos dar ao luxo de deixar essas pessoas de fora.

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*Já que as manifestações / movimentos / levantes / passeatas não têm um nome, eu vou chamar de revolução. Mas alguém precisa dar um nome pra isso logo, porque tá começando a dificultar.

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