A praia de plástico

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Certo dia, lá pelos anos 50, meu avô chegou em casa com uma novidade. Ele havia comprado de um colega de trabalho uma tal de “matéria plástica”, uma espécie de pano impermeável que você colocava nas costas para não molhar na chuva. Meu pai, ainda criança, ficou maravilhado, assim como os vizinhos. Aquilo resolvia um problema frequente: o de ter que trabalhar na lavoura debaixo da chuva e voltar para casa encharcado.

A descoberta era apenas um pedaço de plástico, que hoje passaria batido como um saco de lixo comum. Mas na época, para quem morava numa roça simples no interior de Minas Gerais, aquilo era ouro. Sessenta anos depois, é impossível passar uma hora sequer sem ver um pedaço de plástico na sua frente. É só você olhar ao redor. O computador no qual você lê este texto? Boa parte de plástico. A caneta? De plástico. A cadeira que você está sentado? Componentes de plástico. Seus sapatos, cartões de crédito, celular, relógios, boa parte dos objetos do nosso dia-a-dia são feitos inteiramente ou em parte desse material.

Com tanta abundância, o plástico não tem lá mais muito valor. Tanto que o maior destino dele é aterro, geralmente dentro de um saco de lixo, feito de – adivinha? Isso se for um objeto de sorte. Muitos produtos acabam indo parar na rua mesmo. Daí para o esgoto ou para um rio. De ambas as formas, o destino final é quase certo: o mar. O acúmulo desse material no oceano Pacífico é tão grande, que as correntes marítimas acabaram concentrando o lixo em um ponto e formando uma verdadeira “Ilha de Plástico“.*

Aí é que está outro problema: sabe aquele pedaço de “matéria plástica” que meu avô levou para casa nos anos 50? Ela ainda existe, em algum lugar. Seja num lixão, no meio do mato ou no mar, ela está lá, intacta. Isso porque não são 100 anos que vão fazer um material desse se decompor naturalmente e desaparecer. Portanto, se contarmos a invenção do plástico a partir do Nylon, lá pelos anos 30, é razoável se pensar que todo o plástico já produzido no mundo ainda está na natureza.

Esse assunto me veio a tona hoje depois de assistir esse videozinho abaixo, no fantástico blog Colossal. Está em inglês, mas as imagens são bem ilustrativas. Richard Lang e Judith Selby Lang passam os dias recolhendo pequenos objetos de plástico que encontram na praia perto de onde moram, no norte da Califórnia (EUA). Juntaram tanto material que começaram a fazer obras de arte com aquela matéria-prima de todas as cores.

One Plastic Beach from High Beam Media on Vimeo.

Essa história serve para repensarmos uma coisa: o plástico que jogamos fora todos os dias – é lixo? Ou será que são recursos valiosos da natureza que foram transformados pelo homem e que agora não têm mais valor para nós simplesmente porque o vemos como descartáveis? Como diz Richard: “O contrário da beleza não é o feio. O contrário da beleza é a indiferença”.

*Se você sabe inglês e quer saber mais sobre esse assunto, vale a pena ver a palestra do biólogo Charles Moore, o descobridor da ilha de lixo no Pacífico.

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