Hole*

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Um dia o vazio se materializou na forma de uma pessoa. Era Pedro, o vazio com um nome. Descobriu que era oco naquelas tardes quentes em que o vento sopra devagar. Pois a brisa soprou sobre ele, e através dele passou. Foi assim que ele descobriu que estava destinado a não-ser.

As coisas que ele mais gostava de fazer eram, nessa ordem: dormir, ficar parado debaixo do chuveiro sentindo a água quente escorrer-lhe pelos ombros, e viajar por longas horas dentro de um carro ou de um ônibus. Apreciava por que eram não-fazeres, não-atividades. Eram momentos em que ele podia fazer nada sem ser cobrado, justamente porque eram horas convencionadas à espera. E Pedro vivia à espera.

Gostava de ler, mas isso não o tornava mais sábio, nem mais preenchido. É porque sendo feito de vazio, não havia nada nele que segurasse conhecimento, afeto ou lembrança. Assim, Pedro não se afeiçoava a ninguém, e nem sofria. Não retinha sentimentos, assim como não retinha sucessos em sua vida.

Pedro perdeu sua virgindade numa noite sem calor. Depois não a viu mais por muito tempo.

Podia se dizer que ele era um preguiçoso, mas ele preferia pensar que era um gosto pessoal.

Na escola, ele fazia o que lhe era dito. Não tinha idéias novas, nem era cobrado por isso. Ninguém esperava nada novo dele. Mas Pedro foi crescendo e os tempos mudaram. Chegou a hora em que os pais o chamaram num canto e começaram a falar de coisas com as quais ele não tinha tido contato até então: trabalho, sustento, independência. Até o momento Pedro se levantava e a comida estava na mesa, tomava banho e a roupa estava esperando por ele, pedia dinheiro e lhe era dado. Agora exigiam de Pedro que conseguisse o seu próprio dinheiro, arrmasse sua própria cama, fizesse sua própria comida.

Fazer coisas. Era algo com o qual ele não estava acostumado. Não podia simplesmente passar a existência em branco? Por que a sociedade exigia tanto dele? Ele só queria não-ser. Pedro pensou: o que aconteceria se ele se recusasse a ser alguma coisa? Não lhe ocorreu idéia alguma.

*Este conto foi escrito originalmente em setembro de 2008

2 comentários em “Hole*

    Maria Raquel Silveira disse:
    10.janeiro.2012 às 11:59

    Gostei mto de seu conto.
    Escreva mais contos…
    Bjs
    Raquel

      Larissa Veloso respondido:
      10.janeiro.2012 às 21:37

      Obrigada Raquel. Estou pensando em republicar vários dos meus textos antigos aqui. Abraços

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