De plurais e singulares

Postado em Atualizado em

no Flickr por sAeroZar

Muita gente deve ter a acompanhado a polêmica em torno do livro do Programa Nacional do Livro Didático que afirma que o aluno pode falar “nóis vai”. A história deixou metade dos linguistas de cabelo em pé, e o tratamento da mídia sobre o tema tratou de arrepiar o restante dos teóricos. Pois bem, depois de muito ler em revistas, portais e blogs e dar pitaco em algumas discussões, decidi fazer meu próprio post.

Em primeiro lugar, vale a pena dar uma lida na nota divulgada pela ONG Ação Educativa, responsável pelo material. É uma instituição séria, que há anos se dedica ao tema da educação. Portanto, o que está no livro não foi inventado do dia para a noite, foi fruto de muito estudo e debate.

Em segundo lugar, vale a pena ler o capítulo inteiro do livro. Desde o primeiro parágrafo fica claro que a mensagem ali é de respeito pela norma culta da língua. Em nenhum momento se diz que é preconceituoso conjugar os verbos corretamente. Em nenhum momento se diz que o aluno deve abandonar o português ensinado nas escolas e passar a escrever do jeito que se fala no mercado. O que o livro difunde é justamente que existem vários modos de se expressar, e não podemos banir nenhum deles. Que também não temos o direito de menosprezar uma pessoa porque ela combina plural com singular. Que sequer temos o direito de tentar impor o nosso modo de falar a ela.

No incío, não consegui entender o porquê da polêmica. Afinal, eu sempre aprendi na escola que existem dois modos de falar: o padrão culto, que tenta manter a regra intacta, e a variante popular, que muda o tempo todo. Como duas forças atuando em direções contrárias, sem serem necessariamente boas ou más. Independente do que os livros didáticos dissessem, foi isso que meus professores procuraram me passar. Ninguém nunca ficou martelando na minha cabeça como é abominável falar “nós vai”. E até que eu não me saí tão mal desse ensino. Cometo minhas dissonâncias gramaticais de vez em quando (ainda mais considerando que edito 40 mil caracteres por dia), mas no final consigo até ganhar a vida com o meu português (e adoto a norma culta na escrita e na fala, mas não torço o nariz para o português coloquial quando ele é intencional).

Em um dos debates sobre o tema, eu usei o seguinte argumento (linguistas e historiadores de plantão, se eu estiver falando asneira, me corrijam): quem somos nós para exigir o português correto, se a nossa própria língua provém de uma variação popular de outras? O português não passaria de uma versão “errada” do latim? Então, que preciosismo é esse? Será que daqui a séculos algumas regras não serão modificadas, e nossos teóricos não estarão se arrepiando quando alguém insistir em fazer conjulgar o sujeito e o verbo?

E até me arrisco em algumas reflexões: 1. será que não existe um fundo de preconceito social nessa questão? Por que abominamos tanto a fala fora da norma culta? 2. Será que não está aí falando, mais uma vez, o nosso medo de mudar? A eterna tentativa de permanecer no confortável, no conhecido?

Para quem quiser ler mais sobre o assunto, eu recomendo:

Nota dos responsáveis pelo material

Íntegra do capítulo em questão

MEC descarta regra do “jeito certo” de falar desde 1997

Artigo da Eliane Brum

Artigo da Lu Monte

Ps: recomendo fortemente o texto da Eliane Brum. E me dei a liberdade de extrair um trechinho que adiciona mais à discussão:

“Acreditar que a linguagem popular (ou “variante popular” ou “norma popular”) é dizer coisas toscas como “os livro” pode significar subestimar a riqueza e a diversidade de expressão do povo. Sempre lamentei que as pessoas que me contavam suas histórias não tivessem tido acesso à escola, devido à abissal desigualdade do Brasil, para que não precisassem de mim para transformar em escrita as belas construções, os achados de linguagem que saíam de sua boca. Nada a ver com “os livro”. Posso estar errada, mas me arrisco a afirmar que o povo brasileiro é muito melhor do que isso.”

É essa mulher que sabe das coisas, gente. Eu só estou tentando juntar minhas migalhas.

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