O atropelamento da Massa Crítica

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ATENÇÃO: o vídeo abaixo contém cenas fortes.

Alguns de vocês já devem ter visto o que aconteceu na sexta passada em Porto Alegre. Ciclistas que participavam de um evento foram brutalmente atropelados por um carro, propositalmente. Acima está o melhor vídeo que vi sobre esse assunto, mas já aviso que as cenas são fortes.

Tratava-se de uma manifestação da Massa Crítica, que acontece em várias cidades do mundo uma vez por mês e tem como objetivo gerar reflexão sobre o excesso de automóveis nas grandes cidades. É um movimento pacífico, em sua essência.

Como muitos outros movimentos que não são centralizados ou têm um líder, a Massa Crítica é polêmica. Nunca fui em uma bicicletada, apesar de muito ter desejado ir, mas já ouvi relatos de participantes que hostilizavam motoristas. Algumas pessoas realmente interpretam errado a proposta e vêem os passeios como lugares para o confronto entre ciclistas e motoristas, aproveitando que a fragilidade da bicicleta é superada pela quantidade de ciclistas pedalando juntos.

Mas em nenhum momento, mesmo que tenha havido qualquer tipo de discussão ou ameaça (o que não está claro se teve), nada – mas nada mesmo – justifica um ato desses. Nem um pontapé na porta do carro justifica um ato desses. Nem um copo de mijo no estádio de futebol justifica um ato desses. É literalmente injustificável.

O que me faz ter pena do motorista. Porque ele não vai encontrar nenhuma explicação sobre o evento que possa dar para si mesmo ou para os outros que não vá transformá-lo num monstro. A única saída para salvar o resto de humanidade que resta nele é admitir que teve um acesso de fúria, que – nem que seja por uma fração de segundo – quis sim matar e que usou o carro como um trator para abrir seu caminho sobre aqueles que não julgava dignos de lhe atravancar a passagem. A única saída é, portanto, se admitir um ser irracional, sujeito a comportamentos de puro egoísmo e selvageria. Para salvar o pouco de humanidade que lhe resta, é preciso então se admitir como um ser não-humano.

Mas pelo visto a defesa não vai por aí. Pelo visto a estratégia é alegar outros tipos de sentimento, uma vez que a racionalidade está definitivamente fora de questão. O que eu vi o advogado de defesa afirmar é que o motorista entrou em pânico e pensou que poderia ser linchado. Teria, portanto, medo, que é um sentimento mais aceitável hoje em dia do que a fúria. Afinal, é um dos elementos que mais circula nas grandes cidades, onde pipocam  notícias de crimes violentos e todo desconhecido é tratado como uma ameaça em potencial.

Nesse argumento do medo também entra o da defesa da prole. Afinal, não só a sua vida, mas também a vida de seu filho estaria em jogo. Esse é um argumento que também tem boa aceitação na sociedade, onde a família é vista como uma extensão do eu, e se defender é sinônimo de defender a sua casa. Me faz ter mais pena ainda do sujeito porque, no pior momento de sua vida, naquele no qual ele jogou sua sorte fora em uma fração de segundo, seu filho estava ali ao lado, assistindo tudo de camarote.

Em Porto Alegre está sendo planejada uma grande manifestação nesta terça, pelo fim da violência no trânsito. Espero que esse evento infeliz sirva para despertar as pessoas para o que elas têm se tornado ao se encarcerar nessas grandes armaduras de metal, de concreto, ou mesmo dentro de si mesmas. Espero também que os ciclistas tenham a nobreza de coração de não transformar esse incidente em um marco da batalha entre carros e bicicletas.

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