De machões e menininhas

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A norte-americana Jean Kilbourne resolveu fazer uma pesquisa sobre a imagem da mulher na publicidade depois de ver um anúncio que dizia: pílulas que funcionam como a mente da mulher, por dias da semana. Aí vinha a imagem de uma mulher com pensamentos: segunda: lavar roupas, terça: passar, quarta: faxina na casa, e assim por diante.

Claro que isso foi nos anos 70, e esse modelo não está mais tão em voga. Mas não custa refletir um pouco sobre qual é novo modelo de mulher que estamos adotando, e se esse é realmente o melhor caminho a seguir. Eis o vídeo no qual ela apresenta o resultado de uma terceira ou segunda pesquisa, nos anos 1990. (O vídeo é em inglês, ainda não achei a versão legendada).

Quando era pequena, morria de inveja dos presentes que meu irmão ganhava. Sério. Enquanto eu ganhava um sapato cor-de-rosa ou uma Barbie igual a todas que já tinha, o mais novo ganhava um robô-que-transforma-em-carro-que-sobe-a-parede-virando-cambalhota, ou um kit-de-cientista-ultra-moderno. Eu ficava fula da vida! Ficava brava por me privarem dessas coisas interessantes, desafiadoras, instigantes.

E ainda fico até hoje.

É muito complexa essa divisão que vai além do que realmente há de diferente. Homens reclamam que mulheres só pensam em comprar roupas, mas olhe ao redor! Tudo o que diz respeito às mulheres no mundo grita que ela tem que ser bonita, bem-vestida, bem-sucedida. A televisão, os out doors, folhetos, cartazes de lojas, revistas, jornais. Simplemente em toda situação na qual uma figura feminina aparece, ela está nessa forma magra-sexy-poderosa.

Como não surtar? Dizem pra você 24 horas por dia: você tem que ter esse cabelo, essa cintura, essa roupa, esse sapato, essa bolsa, essa marca, esse tipo de peito, esse tipo de bunda, esse cheiro, não pode fazer barulhos desconfortáveis, deve ser inteligente, casada, boa mãe, não dizer palavras chulas, ser eficiente no trabalho, competitiva mas doce, poderosa mais meiga, tem que transar quatro vezes na semana, entender de futebol e passar Greyssin 2000 quando o cabelo ficar branco. Ah, e sem rugas ou marcas de expressão.

Aliás, a marca da mulher moderna hoje é aquela que é mil-e-uma utilidades: mãe, profissional bem sucedida e boa esposa, além de estar sempre linda e com a depilação, o cabeleleiro e as unhas em dia. Reparem nos comerciais, principalmente os voltados pras mulheres. É sempre algo do tipo: “para você que não para e faz mil e uma coisas ao mesmo tempo, nós temos o desodorante tal, que te deixa com cheirinho agradável o dia inteiro”. O que pode ser traduzido como algo do tipo: você tem que dar conta dos seus filhos, do seu chefe, dos estagiários, da casa, da cozinha e do marido, mas suar não!

E onde estão os homens nesse turbilhão? Provavelmente estão fazendo hora-extra no serviço, pra ganhar uma grana a mais e sustentar o consumo da mulher, que afinal, tem que estar sempre glamurosa, e seu próximo carro do ano. Os homens também entram nesse surto, e muitas vezes não percebem. Escutam 24 horas por dia que eles têm que ganhar bem para sustentar a família, tem que ter o carro do ano, o cheiro da moda, ser forte, não chorar, proteger sem machucar, saber três línguas e fazer doutorado pra subir na carreira.

E aí muitas mulheres surtam por que o marido foi numa partida de futebol com os amigos enquanto ela fica em casa com as crianças, o trabalho pro dia seguinte e a bagunça do almoço pra limpar. Os homens ficam putos porque a mulher “está enchendo o saco”, já que eles passam o dia todo estressando no trabalho e finalmente podem pensar em outra coisa que não seja colocar comida na mesa.

Não parece um círculo vicioso?

Atualização:

No site do Media Education Fundation, é possível assistir a um trecho do Killing Us Softly 4, no qual Jean Kilbourne faz uma avaliação mais moderna sobre o assunto, e infelizmente constata que as coisas pioraram. O vídeo também em inglês e sem legendas, mas prometo fazer um post só sobre o que ela fala, ok?

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